El Niño entra no radar da SLC Agrícola (SLCE3): BTG reduz projeções, mas CEO diz que empresa está ‘muito mais preparada’ do que em 2016
O possível retorno do El Niño já começou a influenciar as projeções para a próxima safra da SLC Agrícola (SLCE3), mas ainda está longe de representar uma certeza de quebra de produtividade.
Em relatório publicado nesta segunda (20), o BTG Pactual reduziu ligeiramente suas estimativas para a safra 2026/27 da companhia ao incorporar um cenário mais conservador para a produtividade. O banco, no entanto, faz questão de destacar que o ajuste reflete apenas o aumento das incertezas climáticas, e não uma expectativa de uma safra significativamente mais fraca.
Do lado da companhia, o CEO da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato, em entrevista ao Money Times, afirmou que a empresa chega muito mais preparada para enfrentar um eventual El Niño do que esteve durante o chamado “Super El Niño” de 2016, quando sofreu perdas relevantes de produtividade em algumas operações.
BTG vê risco, mas descarta cenário de quebra
Segundo o BTG, o potencial impacto do El Niño tem sido um dos principais temas das conversas recentes com investidores.
Historicamente, o fenômeno costuma provocar excesso de chuvas na Região Sul e condições mais secas em partes do Centro-Oeste e Norte do Brasil, o que pode pressionar a produtividade agrícola.
Ainda assim, os analistas ressaltam que o clima permanece uma das variáveis mais difíceis de prever.
Ao analisar as últimas 20 safras de soja em Mato Grosso, o banco identificou sete episódios de El Niño, sendo três classificados como fortes ou muito fortes. Apesar de os eventos mais intensos terem reduzido a produtividade em alguns momentos, o comportamento esteve longe de ser uniforme.
Na safra mais recente houve queda relevante dos rendimentos. Já em 2009/10, também sob um forte El Niño, a produtividade permaneceu praticamente estável. Em episódios mais moderados, a produção chegou até mesmo a aumentar.
Por isso, o BTG optou por reduzir apenas marginalmente suas projeções para a SLC Agrícola.
“Esse é um dos motivos pelos quais estamos reduzindo ligeiramente nossas estimativas de produtividade para a SLC”, escreveram Thiago Duarte e Guilherme Guttila
Ao mesmo tempo, o banco afirma que ainda não há evidências suficientes para projetar uma safra muito mais fraca e defende uma abordagem de cautela, sem extrapolar para um cenário extremo.
O relatório ainda destaca que um eventual El Niño pode nem mesmo reduzir a produtividade nacional da soja, já que o aumento das chuvas na Região Sul pode compensar parte das perdas registradas em outras regiões produtoras.
‘A SLC Agrícola de hoje é muito diferente da de 2016’
Se o BTG prefere incorporar o risco climático às projeções, a SLC Agrícola afirma que sua operação evoluiu significativamente desde o último grande episódio de El Niño.
Segundo Pavinato, em 2016 muitas fazendas ainda eram áreas recém-convertidas do cerrado para a agricultura, com solos menos férteis, baixa capacidade de retenção de água e maior vulnerabilidade aos veranicos.
Hoje, segundo o executivo, a realidade é outra.
As áreas agrícolas estão mais maduras, contam com maior fertilidade, perfil de solo mais desenvolvido, adoção consolidada do plantio direto e cobertura permanente, fatores que aumentam a capacidade das lavouras de suportar períodos temporários de seca.
Outro avanço importante ocorreu na irrigação.
Enquanto em 2016 a companhia possuía cerca de 4 mil hectares irrigados, a SLC está concluindo obras que elevarão essa área para aproximadamente 25 mil hectares já na próxima safra.
Além da infraestrutura, Pavinato destaca que a companhia também acumulou experiência para enfrentar eventos climáticos extremos, aperfeiçoando o manejo das lavouras, antecipando plantios quando possível e aproveitando melhor as janelas de chuva.
“O El Niño, por si só, não significa perda de produtividade”, afirmou.
Segundo o executivo, em estados como Mato Grosso o excesso de chuva pode inclusive prejudicar as lavouras por reduzir a incidência de luz solar. Dessa forma, um volume menor de precipitações pode até beneficiar parte das áreas produtoras, desde que continue suficiente para atender às necessidades das culturas.
“O risco verdadeiro é um veranico prolongado”, resumiu.
Manejo e compras de fertilizantes reforçam estratégia contra riscos climáticos
Além da evolução agronômica, Pavinato destacou que a SLC também aprimorou sua estratégia de manejo e aquisição de fertilizantes para reduzir a exposição tanto às oscilações climáticas quanto à volatilidade dos preços.
Segundo o executivo, a companhia passou a adotar maior flexibilidade na aplicação dos insumos. Em vez de concentrar toda a adubação antes do plantio, parte das aplicações pode ser parcelada e realizada ao longo do ciclo da cultura.
Caso as condições climáticas não sejam favoráveis, a empresa pode adiar parte da adubação, evitando gastos desnecessários e reduzindo perdas financeiras em um eventual cenário de quebra de safra.
O CEO também afirmou que a estratégia de compras segue baseada em prudência e em aproveitar oportunidades de mercado, especialmente diante da alta dos fertilizantes provocada pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Segundo ele, a companhia conseguiu adquirir o fósforo antes da escalada do conflito, evitando a alta dos preços. O potássio foi comprado logo no início das tensões e também sofreu impacto limitado.
O único nutriente cuja aquisição permaneceu em aberto foi o nitrogenado. Nesse caso, a SLC optou por aguardar uma melhora das condições de mercado antes de fechar os contratos.
Pavinato lembrou ainda que o fertilizante nitrogenado é utilizado principalmente nas culturas de milho e algodão, enquanto a soja praticamente não depende desse insumo. Ao mesmo tempo, destacou que a valorização recente das commodities agrícolas, especialmente do algodão, ajuda a compensar parte da pressão sobre os custos de produção.
“Plantar mais milho ou algodão na segunda safra vai depender de como os preços se mantém até o momento do plantio, entre janeiro e fevereiro”.