SLC Agrícola (SLCE3): ‘compramos com desconto uma área que se paga sozinha’, diz CEO sobre terras da Radar
A compra de terras da Radar pela SLC Agrícola (SLCE3) tem uma lógica simples, na avaliação do CEO Aurélio Pavinato: adquirir um ativo de alta qualidade por um preço abaixo do mercado e cuja própria geração de caixa será suficiente para pagar o investimento ao longo do tempo.
Em entrevista ao Money Times, o executivo afirmou que a operação representa uma oportunidade rara, mesmo em um momento de juros elevados e maior custo de capital.
“Quando eu analiso essa área individualmente, é uma operação que se paga. Compramos com desconto uma área que se paga por si só.”
Segundo Pavinato, a Radar — empresa controlada pela Cosan — precisava vender os ativos por questões financeiras, o que abriu espaço para negociações abaixo dos valores normalmente praticados na região.
Sobre o valor do desconto, Pavinato não deu maiores detalhes, mas disse que a aquisição foi feita abaixo dos preços normalmente praticados na região e representa uma oportunidade de longo prazo para a companhia.
“A Radar não estava vendendo porque queria vender. Ela precisava vender. Quem precisa vender normalmente concede desconto.”
Na visão do CEO, o aumento temporário da alavancagem não deve ser o principal critério para avaliar a aquisição. Segundo o Bradesco BBI, a transação vai aumentar a alavancagem da SLC em 0,8x Ebitda para 3,4x.
“Daqui a dez, doze anos, vamos ter aproximadamente 9 mil hectares próprios quitados, pagos pela geração de caixa da própria fazenda.”
Como a negociação foi estruturada
Segundo Pavinato, o modelo da operação foi diferente do normalmente adotado pela Radar.
Embora o bloco no Mato Grosso tivesse três operadores diferentes — a SLC Agrícola, a Bom Futuro e Alexandre Bottan —, o direito de preferência foi concedido sobre toda a área, e não apenas sobre as fazendas operadas por cada empresa.
Inicialmente, a intenção da SLC era comprar apenas a área que já cultivava. No entanto, tanto a companhia quanto a Bom Futuro exerceram o direito de preferência sobre o bloco inteiro.
Segundo o executivo, caso os três operadores insistissem na aquisição integral, a disputa poderia terminar na Justiça.
“Aquilo inevitavelmente geraria uma disputa judicial. Montamos uma estratégia para evitar qualquer disputa judicial e comprar o que faz sentido para nós. Dentro da nossa estratégia de alocação de capital, terras não são nossa alocação preferida, mas, nesse caso, foi uma alocação oportunística por um preço adequado.”
Para evitar esse cenário, as empresas negociaram um acordo para que cada participante permanecesse com os ativos considerados estratégicos.
Pelo entendimento, Alexandre Bottan ficou com os cerca de 1,5 mil hectares que já operava e adquiriu outros 2,5 mil hectares. Essas novas áreas, porém, continuarão sendo cultivadas pela SLC por mais 16 anos — um ano restante do contrato atual e outros 15 anos de arrendamento.
A Bom Futuro permaneceu com as áreas que já cultivava e também adquiriu outras terras próximas.
Já a SLC Agrícola preservou a maior parte da área considerada estratégica. Como parte do acordo, cerca de 6 mil hectares atualmente operados pela companhia serão transferidos gradualmente para a Bom Futuro. Aproximadamente mil hectares serão entregues após a próxima colheita, enquanto os outros 5 mil hectares permanecerão sob operação da SLC até 2030 por conta dos contratos de arrendamento em vigor.
Segundo Pavinato, a solução permitiu evitar disputas judiciais e reduziu o volume de recursos que a companhia precisaria desembolsar em um cenário de custo de capital elevado.
O investimento da SLC ficou em aproximadamente R$ 669 milhões, sendo cerca de 40% pagos à vista e os 60% restantes com liquidação prevista até outubro.
Por que a SLC Agrícola não comprou todo o bloco?
A revisão da operação gerou dúvidas no mercado após a companhia informar que ficaria com uma área menor do que a inicialmente mencionada.
Segundo Pavinato, parte da confusão ocorreu porque os 41,2 mil hectares divulgados inicialmente correspondem à área total do bloco, incluindo reservas legais. A área efetivamente agricultável soma cerca de 28 mil hectares.
Desse total, aproximadamente 17,7 mil hectares eram cultivados pela SLC, cerca de 6 mil hectares pela Bom Futuro, 1,5 mil hectares por Alexandre Bottan e outros 3,5 mil hectares ainda não estavam em operação.
Com o acordo, a SLC reduzirá sua área própria no bloco para cerca de 11,5 mil hectares até 2030.
O executivo afirmou, porém, que nunca houve interesse em adquirir toda a propriedade.
“O bloco que nós plantamos é superior em qualidade, e para quanto a ficar com o bloco todo, esses 28 mil hectares, nós não tínhamos interesse. Além de levar em conta o desembolso de caixa, o que não seria favorável”.
A estratégia, portanto, foi preservar a maior parte da área considerada estratégica e limitar a perda de aproximadamente um terço da área atualmente operada.
Compra pouco altera composição das terras
Apesar da aquisição, o modelo operacional da SLC praticamente não muda.
Antes da operação, cerca de 35% das áreas da companhia eram próprias e 65% eram arrendadas. Com a incorporação das novas terras, a participação das áreas próprias sobe para aproximadamente 36,6%.
Segundo Pavinato, a estratégia da companhia continua baseada na combinação entre terras próprias e arrendadas.