A ‘operadora de excelência’ que pode dobrar de preço, segundo o Itaú BBA
Enquanto boa parte do mercado ainda espera um gatilho para voltar a olhar com mais entusiasmo para o setor sucroenergético, o Itaú BBA enxerga uma empresa preparada para atravessar o ciclo e colher os frutos quando o mercado virar.
Após participar do Jalles Day 2026, os analistas do banco reforçaram a recomendação de outperform (compra) para a Jalles (JALL3) e classificaram a companhia como uma “operadora de excelência”, destacando sua capacidade de entregar ganhos de eficiência mesmo em um ambiente desafiador para o etanol.
O banco manteve o preço-alvo de R$ 4,00 por ação para o fim de 2027, o que representa um potencial de valorização de cerca de 102%.
Apesar da visão positiva, o Itaú BBA pondera que ainda falta um catalisador de curto prazo para destravar valor no setor. Na avaliação dos analistas, investidores devem continuar cautelosos até que as empresas apresentem uma geração de caixa mais consistente.
“Vemos a Jalles Machado como uma operadora de excelência, com importantes vantagens competitivas para navegar um período mais turbulento para o setor”, escreveram Bruno Tomazetto, Gustavo Troyano e Ryu Matsuyama.
Aposta na USV
Um dos principais pilares da tese é a evolução operacional da Usina Santa Vitória (USV), adquirida pela companhia em 2020.
Segundo o banco, a unidade passou por uma profunda reestruturação agrícola. A Jalles reduziu a concentração varietal, introduziu cultivares mais produtivas e ampliou os investimentos em irrigação, fatores que já começam a impulsionar a produtividade acima da média do setor.
A administração espera um crescimento de produtividade de dois dígitos altos neste ciclo, enquanto o Itaú BBA avalia que, no longo prazo, a estrutura de custos da unidade poderá se equiparar — ou até superar — a de usinas mais maduras da companhia.
Cultura de eficiência
Outro destaque do evento foi a Usina Otávio Lage (UOL), apontada pelo banco como uma operação industrial de referência.
Entre os diferenciais estão uma planta de biogás abastecida por vinhaça — a primeira do tipo em Goiás —, sistemas de recuperação de calor, produção própria de biodefensivos e fertilizantes organominerais desenvolvidos internamente.
Na prática, essas iniciativas reduzem custos com energia, insumos agrícolas e fertilização, reforçando uma cultura de eficiência operacional que, segundo o Itaú BBA, é difícil de replicar pelos concorrentes.
Essa busca por produtividade também passa por novos projetos. A companhia testa tratores autônomos, avança na conversão da frota para etanol e biogás, estuda uma planta de biometano e avalia oportunidades de monetização de créditos de carbono.
Para o banco, a estratégia mostra que a empresa continua investindo para reduzir estruturalmente seus custos, independentemente do momento do ciclo.
Etanol de milho segue no radar da Jalles
O Itaú BBA também voltou a destacar o potencial da companhia para entrar no mercado de etanol de milho.
Embora ainda não exista uma decisão de investimento, a Jalles estuda a viabilidade do projeto desde 2020. Na avaliação do banco, a UOL reúne as melhores condições industriais para receber uma futura planta graças à sua infraestrutura e possibilidade de expansão.
A administração afirmou que vê o etanol de milho e o etanol de cana como combustíveis complementares, capazes de ampliar o consumo de biocombustíveis no país e fortalecer os fundamentos do setor.
O desafio para Jalles continua sendo a demanda
Se a operação recebeu elogios, o cenário para o etanol ainda inspira cautela.
Segundo a administração, o problema atual não está na oferta, mas na demanda. Apesar do crescimento da frota flex, muitos consumidores continuam abastecendo com gasolina mesmo quando o etanol é financeiramente mais vantajoso.
Na visão da companhia, o setor precisa investir mais em campanhas de conscientização para aumentar a penetração do biocombustível, além de enfrentar um desequilíbrio na distribuição das margens ao longo da cadeia, já que distribuidoras e postos ficam com uma fatia considerada elevada da rentabilidade.
Ainda assim, a Jalles entra nesse período em posição relativamente confortável graças ao elevado nível de hedge em açúcar, que reduz sua exposição ao momento mais fraco do mercado de etanol enquanto novas fontes de demanda — como combustíveis marítimos e, no longo prazo, o combustível sustentável de aviação (SAF) — ganham espaço.
Embora o Itaú BBA reconheça que o setor ainda carece de um gatilho para uma reprecificação mais ampla das ações, a avaliação é que a Jalles chega mais preparada do que seus pares para capturar valor quando esse ciclo mudar.