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Recuperações judiciais geram ‘incerteza brutal’ no agro, diz CEO da Bayer, que defende política pública para produtor afetado por clima extremo

08 set 2026, 7:00
Marcio Santos, CEO da Bayer Brasil. Foto: Divulgação

O aumento das recuperações judiciais de produtores rurais tem criado uma “incerteza brutal” para o crédito no agronegócio, na avaliação de Marcio Santos, CEO da Bayer Brasil. Para o executivo, porém, é preciso diferenciar produtores que enfrentaram eventos climáticos extremos daqueles que chegaram à dificuldade financeira após decisões de investimento que não se confirmaram.

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“Pegando o ponto específico que você trouxe de recuperação judicial, ele adiciona uma incerteza brutal para quem eu dou crédito”, afirmou Santos, em entrevista exclusiva ao Money Times.

Na prática, a dificuldade de prever quais produtores conseguirão honrar seus compromissos aumenta o risco para quem financia a cadeia. E, segundo o executivo, essa incerteza pode ultrapassar a questão do crédito e chegar à própria decisão de onde investir.

“O que você vai discutir é: será que eu devo produzir no Brasil ou nos outros 194 países do mundo?”, afirmou, em referência à presença global da Bayer.

Para Santos, um ambiente de maior incerteza leva multinacionais a comparar o Brasil com outros mercados na hora de definir a alocação de capital. Isso pode ter efeitos sobre emprego, renda, exportações e geração de divisas.

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“Se você cria um ambiente turbulento, você dá aquela cautela no investidor”, disse.

Política pública para eventos extremos

É nesse contexto que o CEO defende uma discussão sobre política pública para produtores atingidos por eventos climáticos extremos. Santos cita as enchentes no Rio Grande do Sul como exemplo, mas ressalta que o estado também enfrenta períodos de seca e que outras regiões brasileiras passaram por situações semelhantes.

Para esse grupo, ele defende mecanismos que permitam preservar a atividade do produtor após um choque que foge de sua capacidade de controle.

“O nosso agro inteiro vai ficar mais fraco se a gente perder alguém por um evento climático extremo”, afirmou. “Então, o sistema deveria ter fundos para prevenir isso.”

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Ao mesmo tempo, o executivo faz uma ressalva: produtores que assumiram riscos e fizeram investimentos baseados em premissas que não se confirmaram não deveriam receber o mesmo tratamento.

“O que a gente precisa saber distinguir no setor é qual é aquele produtor que, por uma decisão deliberada, fez um investimento [errado] daquele que sofreu um evento climático extremo”, disse.

Para ele, misturar as duas situações pode criar incentivos inadequados. “Se a gente misturar os dois e a gente começar a justificar o mau investimento, o setor perde.”

A discussão, na visão de Santos, deve ser tratada como uma questão de política pública, já que envolve a destinação de recursos da sociedade.

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“Te interessa, como cidadão, assegurar que a agricultura vai ter comida na mesa, que a gente vai ter capacidade de manter a riqueza em situações extremas? Eu diria que sim. É uma questão de política pública num país que tem recursos limitados”, diz. “É uma discussão madura, adulta, difícil, mas é uma discussão que o setor vai precisar ter.”

Peso do Brasil para a Bayer

O Brasil tem peso relevante para a Bayer. Segundo Santos, o país responde por mais da metade da operação da companhia na América Latina, mas a empresa não abre números específicos do país.

A presença brasileira, afirma, é resultado de um ambiente de negócios construído ao longo das últimas décadas, com regras que dão previsibilidade ao retorno dos investimentos.

A companhia completa 130 anos de presença no país e, segundo o executivo, não está discutindo uma saída do mercado brasileiro. A preocupação está mais relacionada às condições para novos investimentos.

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“Eu acho que taxa de juros é uma contingência do momento”, afirmou. Para ele, questões estruturais como segurança da propriedade privada e intelectual e a capacidade de fazer cumprir contratos têm mais peso nas decisões de longo prazo.

Santos cita justamente o avanço das recuperações judiciais como um fator que adiciona incerteza ao sistema de financiamento e pode elevar o custo do crédito.

“Quem decide investimento nos próximos 15 anos, se eu pego o mapa, por exemplo, de recuperação judicial no país dos últimos quatro anos, como ele estará daqui a dez anos?”, questionou.

Questionado se as eleições deste ano poderiam aumentar a incerteza para os investimentos, Santos afirmou que vê o processo eleitoral como positivo para o ambiente de negócios.

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“O fato de a gente ter eleição é um negócio bom per se”, disse. Para o executivo, a continuidade do processo democrático, apesar dos desafios inerentes a ele, é benéfica para a sociedade e, consequentemente, para as empresas.

Bayer mantém plano de possível fábrica

Apesar das ressalvas sobre o ambiente de negócios, a Bayer continua avaliando oportunidades de expansão no país.

A companhia analisa, por exemplo, um plano para ampliar a divisão de Saúde do Consumidor, que poderia incluir a instalação de uma fábrica no Brasil. A possibilidade havia sido mencionada por executivos da empresa em entrevista ao Valor Econômico em meados de maio.

Santos afirmou que o projeto está em fase de amadurecimento e que ainda não há detalhes para divulgação, mas confirmou que ele continua em avaliação. “O Brasil é um mercado que tem grande oportunidade”, disse.

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Entre os fatores citados pelo executivo estão o tamanho da população e o potencial de categorias como cuidados com a pele e vitaminas. A possibilidade de usar o Brasil como plataforma de exportação para outros países da América Latina também está sendo analisada.

Concorrência chinesa exige regras iguais

Sobre o avanço de empresas chinesas no mercado de insumos agrícolas, Santos afirma que a concorrência faz parte do negócio, desde que ocorra em condições equivalentes.

Para ele, o problema surge quando há práticas consideradas desleais, como dumping ou diferenças regulatórias que criem vantagens para determinados competidores.

“Quando você começa a criar assimetria, aí você está amarrando uma bola no pé de um corredor e deixando outro correr”, afirmou.

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Ao mesmo tempo, o executivo diz que a Bayer precisa competir em um mercado global e que a concorrência, quando ocorre em bases iguais, pode levar as empresas a melhorar.

El Niño é ponto de atenção

A possibilidade de um El Niño forte também entrou no radar da Bayer. Segundo Santos, os modelos climáticos apontam para um cenário que preocupa especialmente nas culturas de soja e milho.

“Nesse momento é um ponto de atenção, porque nós estamos com um plano de negócio feito para um ambiente de relativa normalidade”, afirmou.

A região central do país concentra, segundo ele, cerca de dois terços das culturas anuais, o que aumenta a preocupação caso haja um impacto climático relevante nessa área.

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“Então, hoje ele é um alerta grande”, disse.

Assunto chato: glifosato

Santos também defendeu a segurança do glifosato, produto usado no agronegócio e que está no centro de disputas jurídicas bilionárias envolvendo a Bayer nos Estados Unidos.

Agrônomo de formação e com 36 anos de experiência no setor, ele afirma que há centenas de estudos científicos que, em sua avaliação, comprovam a segurança do produto. No Brasil, o herbicida é central para o sistema de plantio direto, lembra o executivo.

Em junho deste ano, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 7 votos a 2, a favor da Monsanto (subsidiária da Bayer), determinando que leis federais impedem processos estaduais por falta de aviso de risco de câncer no rótulo do Roundup, produto à base de glifosato.

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Sobre essa decisão, Santos afirmou vê-la como “um passo de direção correta”, mas fez uma ressalva: para ele, o ponto principal não é apenas o glifosato, mas a autonomia das agências reguladoras. “Eu acho que isso é um negócio básico, mas não tem a ver com o glifosato, tem a ver com segurança de fazer negócio.”

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É jornalista formada pela ECA-USP, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais para Jornalistas pela B3. Tem mais de 25 anos de experiência e passagem pelas principais redações do país – entre elas, Estadão, Folha, UOL e CNN Brasil. Atualmente, é editora-chefe do Money Times.
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É jornalista formada pela ECA-USP, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais para Jornalistas pela B3. Tem mais de 25 anos de experiência e passagem pelas principais redações do país – entre elas, Estadão, Folha, UOL e CNN Brasil. Atualmente, é editora-chefe do Money Times.
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