No vácuo dos bancões, banco digital que opera com inadimplência abaixo de 1% mira dobrar carteira no agro para R$ 2 bilhões
A piora da inadimplência e o avanço das recuperações judiciais no agronegócio fizeram os grandes bancos reduzirem o apetite por crédito ao setor. É justamente nesse espaço que a Agrolend, fintech que se define como um “banco digital do agronegócio”, vê sua principal oportunidade de crescimento.
Depois de encerrar 2025 com uma carteira de crédito de R$ 968 milhões, a instituição pretende praticamente dobrar esse volume para cerca de R$ 2 bilhões até o fim deste ano, apostando que a retração dos bancos tradicionais abriu espaço para novos financiadores no agronegócio.
“O apetite dos bancos para ofertar crédito no agro mudou muito. A oferta está, de fato, mais restrita, mas a necessidade de financiamento e capital de giro continua”, afirmou um dos fundadores e co-CEO da Agrolend, Alan Glezer, em entrevista ao Money Times.
Segundo Glezer, o atual momento do crédito rural é consequência de um ciclo iniciado entre 2021 e 2022, quando juros historicamente baixos e a soja próxima de R$ 180 por saca estimularam produtores a ampliar área, comprar máquinas e aumentar a alavancagem.
Com a posterior alta dos juros, a queda dos preços das commodities e o aumento dos custos de produção, a conta deixou de fechar para uma parcela relevante do setor.
“A gente vê o ciclo de recuperações judiciais aumentando, a inadimplência subindo. O produtor está endividado e, pagando juros nesse patamar, a conta fica bastante inviável. O preço da soja bateu R$ 180 e voltou para R$ 120. Enquanto isso, a inflação dos insumos apertou ainda mais a margem do produtor.”
Segundo dados do Banco Central, a inadimplência das operações de crédito rural com atraso superior a 90 dias para pessoas físicas alcançou 8,8% no primeiro trimestre de 2026, o maior patamar da série histórica.
Bancões puxaram o freio
Na avaliação do executivo, os bancos tradicionais expandiram fortemente suas carteiras justamente durante o período de maior otimismo do agronegócio.
Ele cita que instituições como Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e Caixa ganharam relevância no financiamento ao setor entre 2019 e 2023, período marcado por juros baixos, forte expansão do crédito e preços elevados das commodities.
Agora, diante do primeiro grande ciclo de deterioração do crédito desde 2016, a reação natural foi reduzir o risco.
“Agora, quando a gente vivencia um ciclo de inadimplência mais forte, a reação natural dos bancos é pôr o pé no freio. A mesma coisa acontece com o Banco do Brasil. O apetite desses bancos para crescer no agro está mais restrito.”
Segundo Glezer, essa retração ocorre de forma generalizada.
“Quando os grandes bancos têm uma retração, eles fazem uma retração generalizada. Puxam o freio do agro inteiro. O agro não tem uma distribuição homogênea. Há produtores de baixa produtividade e muito arrendatários, mas também produtores de alta produtividade e terra própria. Se você souber selecionar bem os clientes, há excelentes oportunidades.”
Oportunidade em meio à crise
É justamente esse movimento que sustenta a estratégia de expansão da Agrolend.
Segundo Glezer, a fintech começou a endurecer seus critérios de crédito ainda em 2023, antes da deterioração mais intensa do mercado.
“A gente freiou muito antes. Como a gente freiou muito antes, entramos neste momento da crise muito pouco alocados.”
Hoje, a instituição possui cerca de R$ 650 milhões de patrimônio líquido para uma carteira próxima de R$ 800 milhões, um nível de alavancagem bem inferior ao observado em bancos tradicionais.
“Um banco normalmente opera com uma carteira equivalente a cerca de dez vezes o patrimônio líquido. Nós estamos muito pouco alavancados vis-à-vis uma instituição financeira tradicional.”
Segundo ele, isso permite aumentar a exposição justamente quando outros concorrentes reduzem a oferta.
“Nós entramos nesse momento com maior apetite, selecionando a dedo as operações e os clientes. A gente consegue montar um portfólio saudável, emprestando dinheiro para os melhores players do setor num momento em que eles precisam de fato.”
Na avaliação do executivo, a restrição de crédito não ocorre apenas entre os bancos brasileiros.
Segundo ele, grandes multinacionais de insumos agrícolas também reduziram a oferta de financiamento ao agronegócio após a alta dos juros no exterior.
“As grandes químicas da Alemanha, do Japão e dos Estados Unidos reduziram essa oferta. No Japão, por exemplo, o juro de longo prazo era zero e hoje está entre 3% e 4%. Essa combinação das multinacionais reduzindo crédito lá fora e dos bancos locais diminuindo o apetite criou uma demanda enorme por crédito no agro. Esse desequilíbrio cria uma condição muito adequada para trabalhar e crescer a carteira.”
Como a Agrolend pretende disputar espaço com os bancões
Glezer afirma que a Agrolend não pretende competir apenas pela oferta de crédito, mas pela velocidade na aprovação das operações e pela capacidade de estruturar soluções sob medida para empresas do agronegócio.
Segundo ele, a instituição ampliou seu foco e hoje atende não apenas produtores rurais, mas também grandes empresas do setor e subsidiárias de multinacionais.
“A gente tem atendido mais grandes empresas do agro. Esse é o modelo que mais cresceu recentemente. Quando elas buscam um banco, querem um banco que tenha volume e tamanho. Nós conseguimos fazer operações grandes.”
O executivo afirma que a combinação entre patrimônio, velocidade de análise e flexibilidade na estruturação das operações permite atender demandas que, muitas vezes, demoram mais para avançar em instituições financeiras tradicionais.
“Hoje a gente consegue fazer operações de R$ 50 milhões ou R$ 100 milhões muito rapidamente.”
Na avaliação do CEO, o diferencial da Agrolend está em reunir capacidade para operações de grande porte, agilidade na aprovação do crédito e customização das estruturas financeiras.
“O cliente precisa de velocidade. Às vezes ele precisa financiar uma venda de fertilizantes e precisa ter certeza de que o recurso estará disponível amanhã. Nos bancos tradicionais, a operação não é tão rápida quanto é com a gente.”
Carteira preservada
Mesmo diante do aumento das recuperações judiciais no setor, Glezer afirma que a carteira da Agrolend segue apresentando indicadores confortáveis.
Segundo ele, a inadimplência acima de 90 dias permanece abaixo de 1%, indicador considerado bastante positivo pela companhia diante do cenário atual.
“Isso reflete a cautela e o conservadorismo que adotamos há dois anos, quando mudamos o perfil da carteira e elevamos muito a barra de aprovação. No crédito, você não consegue consertar o rumo da carteira de uma hora para outra. É um processo longo.”
Segundo o executivo, a estratégia adotada permitiu que a empresa chegasse ao momento mais desafiador do crédito rural com uma carteira mais resiliente.
“A nossa inadimplência está controlada porque redirecionamos o caminho do negócio e a forma de trabalhar. Hoje colhemos os frutos, mas isso não quer dizer que foi fácil. Observamos recuperações judiciais e, obviamente, estivemos envolvidos em algumas delas, como todos os outros players.”
Apesar disso, Glezer não acredita que o ciclo de deterioração tenha terminado.
“A gente já viu os produtores que estavam pior posicionados saindo do mercado. Mas esse ciclo ainda não terminou. A melhora estrutural depende principalmente de uma queda mais consistente dos juros.”
Apesar da cautela para o curto prazo, o executivo mantém uma visão positiva para o agronegócio brasileiro no horizonte mais longo.
“O agro é um setor cíclico. O Brasil continua sendo extremamente competitivo, com ganhos de tecnologia, produtividade e capacidade de expandir a produção. É preciso olhar além do momento atual.”