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El Niño ‘muito forte’: o que está em jogo para a safra, a inflação e os juros no Brasil

18 ago 2026, 7:00
la niña el niño
(Fonte: Pixabay)

Regata, casaco de lã e guarda-chuva na bolsa. Nos últimos meses, conferir a previsão do tempo antes de sair de casa deixou de ser suficiente para se preparar para o dia. As mudanças bruscas no clima chamam atenção, mas seus efeitos mais relevantes costumam aparecer longe das ruas e dos termômetros. Quando o assunto é El Niño, os impactos podem chegar às lavouras, aos preços dos alimentos, à inflação, ao crescimento econômico e até à trajetória dos juros.

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É por isso que o fenômeno voltou ao radar de economistas, investidores e autoridades. As condições típicas do El Niño já foram confirmadas no Oceano Pacífico, e os modelos climáticos apontam para um fortalecimento gradual ao longo dos próximos meses, especialmente entre a primavera e o verão.

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), há 97% de probabilidade de que o evento persista até o início da primavera do hemisfério norte de 2027 e 81% de chance de que alcance intensidade considerada muito forte entre outubro e dezembro deste ano.

A preocupação, no entanto, vai muito além das variações de temperatura. O mercado tenta medir até que ponto uma mudança no comportamento das chuvas pode alterar a dinâmica da economia brasileira.

O raciocínio parece simples: condições climáticas adversas afetam a produção agrícola, que influencia a oferta de alimentos, que por sua vez interfere na inflação. Dependendo da intensidade desse movimento, os reflexos podem alcançar o crescimento econômico e a própria condução da política monetária pelo Banco Central.

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Mas a realidade é menos linear do que a teoria. Ao contrário de outros choques econômicos, o El Niño não produz um efeito uniforme sobre o país. O mesmo fenômeno que pode prejudicar uma região tende a beneficiar outra. Enquanto determinadas áreas enfrentam estiagens prolongadas, outras recebem mais chuva e registram ganhos de produtividade.

É justamente dessa combinação de impactos que surgem os diferentes cenários para o agronegócio, para os preços e para a atividade econômica.

Antes de tudo: o que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele integra o sistema conhecido como ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre três fases: El Niño, La Niña e neutralidade.

Em geral, os episódios começam a se desenvolver ao longo do segundo semestre e podem permanecer ativos durante vários meses. Segundo a NOAA, a duração costuma variar entre nove e doze meses, embora eventos mais longos não sejam incomuns.

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O último episódio ocorreu entre junho de 2023 e abril de 2024. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno atingiu intensidade moderada a forte e teve seu pico em dezembro de 2023, quando a temperatura da superfície do Pacífico ficou cerca de 2°C acima da média histórica. Em junho de 2024, o Brasil voltou oficialmente para condições neutras. Agora, os sinais voltam a apontar para uma nova fase de aquecimento.

Quais são os riscos para o Brasil?

No Brasil, o padrão climático associado ao El Niño costuma ser bastante desigual. Em linhas gerais, o fenômeno favorece chuvas acima da média na Região Sul e aumenta o risco de condições mais secas no Norte e em partes do Nordeste. Áreas agrícolas importantes do Centro-Oeste e da região do Matopiba (áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) também podem enfrentar irregularidade nas precipitações, enquanto o Sudeste costuma apresentar efeitos menos previsíveis.

Boletins produzidos por órgãos como Inmet, Inpe, ANA e Cemaden apontam para a possibilidade de chuvas acima da média em partes do Sul e abaixo da média em áreas do centro-norte do país, além de temperaturas elevadas e maior risco de ondas de calor e incêndios florestais.

Isso cria um mapa de ganhadores e perdedores. Chuvas mais abundantes podem beneficiar culturas como soja e milho no Sul, elevando a produtividade. Em contrapartida, precipitações excessivas também aumentam o risco de alagamentos, dificultam operações de campo e favorecem o surgimento de doenças nas lavouras.

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Já no Centro-Oeste, estiagens prolongadas e temperaturas elevadas podem atrasar o plantio da soja e comprometer a produtividade. Como a soja abre espaço para o cultivo da segunda safra de milho, qualquer atraso acaba repercutindo em toda a cadeia agrícola.

A primeira peça do dominó

É justamente na agricultura que os economistas enxergam o principal canal de transmissão do El Niño para a economia. Em relatório recente, o Santander avaliou os possíveis impactos sobre a safra 2026/27 e concluiu que os efeitos tendem a variar consideravelmente entre culturas e regiões.

Na soja, o aumento das chuvas no Sul do Brasil e na Argentina pode favorecer a produtividade. Por outro lado, a irregularidade climática no Centro-Oeste representa um fator de risco para parte da produção nacional.

O mesmo raciocínio vale para o milho, especialmente porque a safrinha está fortemente concentrada em regiões mais expostas a períodos de estiagem.

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A MB Associados observa que episódios intensos de El Niño costumam elevar a volatilidade das commodities agrícolas, mas nem sempre provocam perdas generalizadas. Em muitos casos, prejuízos registrados em determinadas regiões acabam sendo compensados por ganhos observados em outras áreas produtoras.

O feijão aparece entre os produtos mais sensíveis às oscilações climáticas. Durante o forte episódio de 2015/16, seu preço acumulou alta de 135% em doze meses.

Em 2024, porém, o avanço foi muito menor, de 5,7%. A diferença ajuda a ilustrar como a agricultura brasileira se tornou mais preparada para lidar com choques climáticos, graças à evolução tecnológica, à expansão da irrigação e à maior diversificação geográfica da produção.

Reforço do Governo no agro

Se a agricultura continua sendo o principal elo entre o El Niño e a economia brasileira. A diferença é que o setor chega a este novo ciclo mais preparado do que em episódios anteriores.

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Além dos avanços tecnológicos incorporados à produção nos últimos anos, o governo ampliou os instrumentos de financiamento e mitigação de riscos para o agronegócio. O Plano Safra 2026/27 destinou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, sendo R$ 384,9 bilhões voltados para custeio e comercialização e outros R$ 140,2 bilhões para investimentos.

Boa parte desses recursos está direcionada justamente para áreas capazes de aumentar a resiliência da produção diante de eventos climáticos extremos, como irrigação, armazenagem, inovação tecnológica e modernização da infraestrutura rural.

Em paralelo, a Medida Provisória 1.376, editada em julho, autorizou linhas especiais para composição e renegociação de dívidas de produtores atingidos por eventos climáticos adversos e abriu espaço para a participação da União em fundos garantidores de crédito rural.

Embora a medida não tenha sido criada especificamente em resposta ao atual episódio de El Niño, ela reforça a rede de proteção disponível para um setor cada vez mais exposto à volatilidade climática.

Impacto nos alimentos e inflação

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Quando os efeitos do El Niño chegam ao bolso do consumidor, normalmente eles aparecem primeiro nas prateleiras dos supermercados.

O estudo do Santander indica que a relação entre o fenômeno climático e os preços é mais evidente em alimentos frescos, como frutas, legumes, verduras e tubérculos, do que no conjunto da alimentação consumida nos lares brasileiros. São produtos cuja oferta responde de forma mais rápida às oscilações de temperatura, chuva e umidade.

Foi o que aconteceu no episódio de 2023/24. Segundo os cálculos do banco, o El Niño adicionou cerca de 0,90 ponto percentual à inflação dos alimentos em 2023 e mais 1,26 ponto percentual no primeiro semestre de 2024. Após o encerramento do fenômeno, o efeito passou a atuar em sentido contrário, contribuindo para uma desaceleração dos preços.

Para o atual ciclo, as projeções apontam para um comportamento semelhante. O Santander estima que a inflação da alimentação no domicílio pode atingir o pico no início de 2027, ficando quase cinco pontos percentuais acima dos níveis observados em agosto de 2026. O impacto estimado para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) cheio do ano que vem é de aproximadamente 0,40 ponto percentual.

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Isso não significa, porém, que a inflação brasileira esteja condenada a uma nova disparada. Embora os alimentos tenham peso relevante no IPCA, eles representam apenas uma parcela da cesta de consumo monitorada pelo IBGE. Serviços, combustíveis, bens industriais e energia elétrica também exercem influência importante sobre o índice.

Nem mesmo a energia segue uma regra simples

A experiência dos ciclos anteriores mostra que o comportamento da energia elétrica durante episódios de El Niño está longe de ser previsível.

Ao analisar eventos passados, o Santander encontrou resultados bastante diferentes para os reservatórios brasileiros. Em alguns casos, os níveis de armazenamento aumentaram. Em outros, diminuíram. Mesmo episódios classificados como muito fortes produziram efeitos distintos sobre o sistema hidrelétrico nacional.

Essa falta de padrão ajuda a explicar por que o mercado acompanha o fenômeno com cautela. Ainda assim, as expectativas climáticas já começaram a influenciar os preços negociados no setor elétrico.

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Entre maio e julho desde ano, contratos de curto prazo no mercado livre chegaram a registrar queda de até 44%, refletindo a perspectiva de chuvas mais abundantes em parte do Sul do país. Ao mesmo tempo, contratos com vencimento em 2027 passaram a incorporar um prêmio de risco maior diante das incertezas sobre o comportamento futuro do regime hídrico.

Entre a safra e a inflação está o crescimento econômico

Depois dos efeitos sobre a agricultura e os preços dos alimentos, a próxima pergunta é inevitável: qual pode ser o impacto sobre o PIB? A resposta dos economistas é menos dramática do que muita gente imagina.

O agronegócio tem peso relevante na economia brasileira, mas os choques climáticos raramente afetam todas as regiões produtoras ao mesmo tempo e na mesma intensidade. Em muitos casos, perdas localizadas acabam sendo parcialmente compensadas por ganhos observados em outras áreas ou por preços internacionais mais elevados.

Essa é a avaliação do Bank of America (BofA), que vê os efeitos do El Niño mais concentrados em setores específicos e em determinadas commodities do que no crescimento agregado da economia brasileira.

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A MAG Investimentos, por sua vez, considera o fenômeno um fator de risco para a atividade em 2027. A casa projeta expansão de 1,6% para o PIB no próximo ano, mas reconhece que um impacto mais intenso sobre a produção agropecuária poderia levar a revisões para baixo.

Na prática, o mercado trabalha com um cenário de incerteza. Há espaço tanto para um quadro de desaceleração moderada quanto para um efeito econômico relativamente limitado, dependendo de como o fenômeno evoluir nos próximos meses.

“Se o El Niño surpreender no sentido de não causar tanto estrago, seria algo positivo tanto para inflação quanto para atividade pelo impacto menos adverso principalmente no ano que vem”, destaca Felipe Oliveira, economista-chefe da MAG.

E onde entram os juros?

No final dessa cadeia de transmissão está o Banco Central.

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Se o El Niño provocar perdas agrícolas mais expressivas e uma pressão persistente sobre os preços dos alimentos, o processo de desinflação pode se tornar mais lento. Nesse cenário, a autoridade monetária teria menos espaço para promover cortes adicionais na taxa Selic.

Por outro lado, existe também a possibilidade de que os impactos recaiam de forma mais intensa sobre a atividade econômica do que sobre a inflação.

Oliveira avalia que, caso o crescimento perca força sem uma deterioração relevante dos preços, o enfraquecimento da economia poderia abrir espaço para uma postura monetária menos restritiva.

Muito forte não significa necessariamente muito ruim

A classificação de “muito forte” costuma chamar atenção, mas ela não deve ser confundida com um cenário de crise.

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A intensidade do fenômeno é apenas uma parte da equação. Os resultados para a economia dependem de uma combinação muito mais ampla de fatores: onde as chuvas estarão concentradas, quando ocorrerão, quais culturas serão afetadas, qual será a resposta dos produtores, como estarão os estoques, o comportamento dos preços internacionais e até mesmo as condições climáticas enfrentadas pelos concorrentes do Brasil.

Confira três cenários desenhados pelo mercado

🔴 El Niño forte demais🟡 El Niño dentro do esperado🟢 El Niño menos intenso
ClimaChuvas e secas mais extremasPadrão regional esperado para o fenômenoImpactos climáticos menores
SafraPerdas relevantes em culturas e regiões vulneráveisPerdas em algumas áreas são compensadas por ganhos em outrasProdução mais próxima do normal
AlimentosForte pressão sobre frutas, hortaliças, tubérculos e outros alimentosAlta sazonal, mas administrávelMenor pressão ou até reversão mais rápida
InflaçãoIPCA mais pressionado e desinflação mais lentaImpacto concentrado e temporárioInflação de alimentos ajuda a surpreender para baixo
PIBAgro pesa negativamente sobre o crescimentoEfeito agregado limitadoMenor impacto negativo sobre a atividade
JurosBC ganha menos espaço para cortarTrajetória depende dos demais componentes da inflaçãoMais espaço para continuidade dos cortes
BrasilChoque negativo de ofertaVolatilidade, mas sem desastreSurpresa positiva para inflação e crescimento
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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.

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