Raízen (RAIZ4) sobe na B3 após avanço nas negociações sobre a dívida, dois meses depois do pedido de recuperação extrajudicial; relembre o caso
As ações da Raízen (RAIZ4) subiam 2,17% por volta de 11h23 desta terça-feira (12). O desempenho contrasta com o do Ibovespa, o principal índice da B3, que operava em queda de quase 1% na manhã de hoje.
A alta das ações da Raízen acontece após a notícia da Reuters de que as negociações entre credores e acionistas da companhia avançaram para evitar uma recuperação judicial e se concentram na estrutura de governança da empresa.
Tudo isso ocorre dois meses após o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen em 11 de março, um período marcado por uma série de negociações, rumores e debates sobre os próximos passos da joint venture entre Shell e Cosan (CSAN3).
Relembre a ‘novela’ Raízen (RAIZ4)
A Raízen estreou na bolsa em meio ao boom de IPOs de 2021, avaliada em R$ 76 bilhões e com a promessa de liderar uma revolução dos combustíveis verdes, impulsionada pelo etanol de segunda geração (E2G).
Na prática, porém, a tese encontrou obstáculos relevantes: o arrefecimento do apetite global por investimentos ESG, o avanço do etanol de milho — alternativa mais barata e escalável — e um cenário de preços pressionados para açúcar e etanol.
Quase cinco anos após o IPO, realizado em 5 de agosto de 2021, a joint venture entre Cosan e Shell perdeu 93,52% do valor de mercado (até 11h13 de 12 de maio) e se transformou em uma penny stock, negociada na faixa de R$ 0,47. Ao mesmo tempo, a companhia acumulou uma dívida bilionária após um ciclo agressivo de aquisições e expansão de ativos.
Na tentativa de reverter essa trajetória, a Raízen iniciou, no fim de 2024, um processo de reestruturação focado na redução da alavancagem. O movimento incluiu uma ampla troca no comando executivo, com a chegada de Nelson Gomes ao cargo de CEO, após passagens por ExxonMobil, Cosan, Compass, Comgás e Moove.
Até fevereiro de 2026, a companhia já havia levantado cerca de US$ 5 bilhões com iniciativas de desinvestimento, incluindo a venda de usinas e outros ativos.
No terceiro trimestre da safra 2025/2026, porém, veio outra pancada: a companhia reportou prejuízo de R$ 15,65 bilhões. A dívida líquida saltou de R$ 38,6 bilhões no 3T25 para R$ 55,3 bilhões no 3T26, enquanto a alavancagem medida pela relação dívida líquida/Ebitda passou de 3 vezes para 5,3 vezes no mesmo intervalo.
Em meio à deterioração do perfil de crédito — evidenciada por sucessivos rebaixamentos de rating por parte de Fitch Ratings, S&P Global Ratings e Moody’s — a Raízen reconheceu um impairment de R$ 11,1 bilhões.
O cenário desencadeou rumores, negociações e promessas de aporte por parte de Cosan e Shell, em discussões que se arrastaram por semanas. Até que, em 11 de março, a Raízen protocolou um pedido de recuperação extrajudicial para suspender, por 90 dias, o pagamento de dívidas que somam cerca de R$ 65 bilhões.
O movimento culminou na exclusão da companhia do Ibovespa e outros índices da bolsa brasileira.
Propostas de reestruturação
O início da recuperação extrajudicial abriu espaço para uma série de propostas e discussões envolvendo a reestruturação financeira da Raízen.
Em 6 de abril, o Valor Econômico noticiou que credores rejeitaram a proposta de converter 45% da dívida — cerca de R$ 29 bilhões — em ações. O mecanismo poderia abrir caminho para aproximadamente R$ 10 bilhões em vendas de ativos.
Segundo a publicação, alguns credores chegaram a enviar uma carta aos acionistas Cosan e Shell pedindo um reequilíbrio da proposta de reestruturação.
Pouco mais de uma semana depois, em 14 de abril, credores e detentores de títulos da Raízen apresentaram uma contraproposta para converter 45% da dívida em troca de 90% de participação na empresa, segundo a Bloomberg News.
A operação configuraria um “debt-to-equity swap”, modelo em que dívidas são convertidas em participação acionária. Na prática, a Raízen teria alívio financeiro, mas os credores assumiriam o controle da companhia, reduzindo significativamente a fatia dos atuais acionistas.
Em 20 de abril, a Bloomberg informou que bancos credores apresentaram uma nova proposta de reestruturação. O plano previa que 30% dos recursos obtidos com a venda de ativos da companhia na Argentina fossem destinados à redução da dívida.
Entre as exigências dos credores também estava a saída de Rubens Ometto da presidência do conselho da Raízen — pedido já defendido anteriormente pelos detentores de títulos.
Enquanto os bondholders solicitaram um aporte de R$ 8 bilhões, a proposta dos bancos não especificava um valor para capitalização.
Após a repercussão das negociações, a Raízen informou à B3 que mantinha conversas com credores e demais partes interessadas para construir uma solução consensual para a reestruturação financeira, mas ressaltou que ainda não havia definição sobre os próximos passos.
Já em 26 de abril, a Bloomberg News informou que a companhia encaminhou uma proposta alternativa aos credores enquanto tentava negociar os termos da reestruturação dos R$ 65 bilhões em dívidas.
Segundo a Bloomberg, a Raízen comunicou aos credores que negociava uma captação entre R$ 2,5 bilhões e R$ 5 bilhões em novos recursos. O montante se somaria aos R$ 4 bilhões em financiamento já comprometidos por Shell e Rubens Ometto.
Ainda assim, os credores não receberam sinalização positiva da companhia sobre mudanças no comando do conselho. De acordo com a Bloomberg, Rubens Ometto resistia em deixar a presidência do colegiado.
No dia 28 de abril, um grupo de detentores de títulos de renda fixa da Raízen contratou a consultoria financeira Journey Capital e o escritório Felsberg Advogados para representá-los no processo de reestruturação da companhia, segundo a Reuters.
De acordo com fontes ouvidas pela Reuters, o grupo concentra cerca de R$ 14 bilhões em títulos emitidos pela Raízen. A Journey confirmou a contratação, enquanto Felsberg e Raízen preferiram não comentar.