Construtoras recuam em bloco nesta segunda-feira (27); o que está por trás da queda?
As ações das construtoras recuam em bloco na bolsa de valores (B3) nesta segunda-feira (27) em meio à notícia de que o governo federal deve lançar, nos próximos dias, o programa Desenrola 2.0, que poderá permitir o uso de dinheiro do FGTS para a quitação de dívidas.
A informação foi publicada mais cedo pelo jornal Folha de S.Paulo, que apurou, junto a integrantes do Ministério da Fazenda, que os recursos poderão ser utilizados apenas para cobrir o total do débito — e não para amortização.
Em outras palavras, se uma pessoa tiver uma dívida de R$ 100 e saldo igual ou superior a esse valor no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, poderá usar o dinheiro para liquidar o débito. Do contrário, o saque não será permitido.
O movimento, porém, levanta alertas, conforme explicou Felipe Sousa, analista do AndBank, ao Money Times.
“O Executivo Federal desenha uma estratégia para conter o endividamento recorde, equivalente a 49,9% da renda das famílias, e considera justamente o uso do FGTS como ferramenta”, afirmou.
“O redirecionamento, contudo, de recursos do crédito habitacional pode afetar financiamentos e novos projetos, inclusive os destinados às faixas 1 e 2 do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV)”, prosseguiu.
“Essa preocupação ajuda a explicar a apreensão do setor, sobretudo em um momento de maior demanda por recursos devido à expansão do próprio MCMV.”
Por volta das 11h50 (horário de Brasília), as ações de MRV (MRVE3), Direcional (DIRR3), Tenda (TEND3), Plano & Plano (PLPL3) e Cury (CURY3) caíam 3,29%, 3,07%, 5,72%, 6,56% e 4,61%, respectivamente.

Setor se opõe à liberação
No início de março, o segmento da construção civil já havia se posicionado contra a proposta em estudo pelo governo de liberar parte dos recursos do FGTS para o pagamento de dívidas.
Segundo empresários do setor — e em linha com a análise de Felipe Sousa —, a medida gera preocupação porque o FGTS é a principal fonte de recursos (funding) para a compra e construção de moradias no Brasil, especialmente dentro do Minha Casa, Minha Vida.
A Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc) emitiu uma nota na qual manifesta “forte preocupação” com as discussões em curso. De acordo com a entidade, a medida pode reduzir significativamente o volume de recursos disponíveis para o financiamento da casa própria, afetando principalmente a população de menor renda.
“É preciso cautela para não descaracterizar o papel do FGTS. Estamos falando de um instrumento essencial para o acesso à moradia. Qualquer medida que reduza sua capacidade de financiamento traz impactos diretos sobre o déficit habitacional, o emprego e o crescimento econômico”, afirmou o presidente da Abrainc, Luiz França, no documento.
Minha Casa, Minha Vida recebe aporte de R$ 20 bilhões
No último dia 15 de abril, cabe lembrar, o governo federal anunciou um aporte de R$ 20 bilhões para ampliar o funding das contratações de moradias destinadas a famílias enquadradas na faixa 3 do Minha Casa, Minha Vida.
Com os novos recursos, que terão como fonte o Fundo Social do Pré-Sal, o orçamento total voltado à habitação deve alcançar R$ 200 bilhões em 2026.
A expectativa é de que o reforço ajude o governo a cumprir a meta de entregar 3 milhões de moradias contratadas pelo MCMV até o fim da atual gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2023–2026). Para este ano, o objetivo é entregar 850 mil unidades habitacionais.
De acordo com o governo, o uso de recursos do Fundo Social evitará uma pressão sobre o FGTS.
Custos elevados
Outro fator que também pesa sobre as ações do setor é a alta dos custos de construção. Em abril, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M) registrou avanço de 1,04%, ante elevação de 0,36% em março, conforme dados do FGV Ibre divulgados hoje (27). Em 12 meses, o aumento é de 6,28%.
Segundo o Itaú BBA, a elevação dos preços do petróleo e do diesel vem pressionando materiais como PVC, cimento e outros insumos, além de encarecer o transporte.
Na prática, isso significa que as construtoras estão gastando mais para erguer novos empreendimentos.
No segmento de média e alta renda, a situação, de acordo com o banco, é ainda mais delicada. Isso porque as empresas têm menor capacidade de repassar esses custos aos preços dos imóveis, em um cenário de crédito mais caro e menor poder de compra por parte do consumidor.
Além disso, os gastos com mão de obra seguem pressionados, e o BBA aponta que eventuais mudanças na escala de trabalho 6×1 podem adicionar uma pressão moderada sobre as despesas das construtoras.
Diante desse cenário, a casa afirma adotar uma postura mais cautelosa com o setor, e, por enquanto, diz manter Tenda (TEND3) e Direcional (DIRR3) como suas preferidas (top pick) no nicho de baixa renda, e Moura Dubeux (MDNE3) no de média e alta renda.
*Com informações do Estadão Conteúdo