Análise: Lula é o “vencedor” do debate cancelado da Globo, mas STF pode ter criado um problema para o presidente
Pode um debate cancelado ter ganhador? A suspensão, na última hora, do encontro final dos candidatos à Presidência pela Rede Globo favoreceu claramente a campanha de Lula. Mas o “craque da rodada” foi o Judiciário, o protagonista indesejado destas eleições.
O debate da Globo seria a única oportunidade de os eleitores assistirem a um confronto do presidente com Flávio Bolsonaro no primeiro turno, depois de ambos desistirem dos embates anteriores.
Ao anunciar a presença, o senador colocou pressão sobre o petista, mas a campanha do presidente optou por não participar do embate.
A escolha tem fundamento do ponto de vista estratégico. Afinal, Lula seria o grande alvo dos demais candidatos, todos do campo da direita. Por outro lado, a ausência também teria um custo alto: o de ser chamado de “fujão” pelos concorrentes.
A maneira que a campanha de Lula encontrou para neutralizar os impactos negativos do debate foi participar de uma entrevista ao Flow Podcast, no mesmo horário. Até aí, jogo jogado.
O cenário até o início da tarde de quinta-feira parecia mais favorável a Flávio Bolsonaro. O senador provavelmente sofreria ataques dos adversários que tentaram — pelo menos até agora, sem sucesso — ir para o segundo turno. Mas, a esta altura da corrida eleitoral, parecia um risco calculado para o principal oponente de Lula.
O efeito do Judiciário
O que deveria ser uma disputa meramente política deixou o estúdio e voltou a passar pela Praça dos Três Poderes — mais uma vez, com destino ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Foram três decisões que mudaram por completo o panorama do debate da Globo. Primeiro, com a inclusão de Romeu Zema (Novo) por ordem do ministro Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Horas antes do debate, o TSE voltou a campo ao proibir a Globo de exibir a cadeira ou o púlpito vazio com o nome do presidente Lula na transmissão, como previam as regras.
Por fim, o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou de última hora que a emissora incluísse Renan Santos no debate.
Com a nova configuração e diante da possibilidade do candidato do Missão adotar uma postura de “tudo ou nada” contra ele, Flávio anunciou a desistência, alegando “insegurança jurídica”. Logo depois, a Globo cancelou a transmissão.
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Lula venceu, mas vai levar?
Não há dúvida de que o saldo das decisões judiciais favoreceu Lula. Sem o confronto no debate, Lula evitou uma noite em que seria o principal alvo dos adversários e ainda ocupou sozinho o espaço reservado à entrevista no Flow Podcast. Tudo isso na reta final da campanha.
Resta saber qual será a reação do eleitor, principalmente os indecisos. Se as decisões que inviabilizaram o debate forem interpretadas como uma interferência indevida — ou como uma tentativa de proteger Lula —, o ganho de curtíssimo prazo do petista pode se transformar em custo político nas urnas.
Também não está claro se a campanha de Flávio conseguirá capitalizar essa insatisfação com o STF. Existe ainda a chance de a desistência do debate na última hora ser interpretada como medo de enfrentar um ambiente mais hostil.
Se o vencedor das eleições ainda é uma incógnita, o cancelamento do debate da Globo teve uma perdedora incontestável: a democracia.