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Turbulência na América do Sul pode afastar investidores do Brasil

12/11/2019 - 7:42

 

Bandeira do Brasil
Nos últimos dias os investidores estrangeiros elevaram sua cautela podendo reduzir o apetite externo pelas concessões e privatizações do governo brasileiro (Imagem: Pixabay)

Por Paula Salati/Investing.com

O clima turbulento na América do Sul nos últimos dias tende a elevar a cautela dos investidores estrangeiros com relação à região, podendo reduzir o apetite externo pelas concessões e privatizações do governo brasileiro.

Para o CEO da Veedha Investimento, Rodrigo Tonon Marcatti, a frustração com o leilão do pré-sal, na semana passada, já foi um reflexo dessa desconfiança. “O gringo não está muito disposto com os sinais que ele tem enxergado”, diz Marcatti.

Além da renúncia do presidente da Bolívia, Evo Morales, no domingo (10), o presidente do Chile, Sebastián Piñera, continua enfrentando intensos protestos de rua contra o seu governo, ao passo que o kichnerismo acaba de retornar ao poder na Argentina, depois de um intervalo de quatro anos, agora sob a liderança de Alberto Fernández. Soma-se a todo este cenário, a crise econômica e humanitária na Venezuela.

“O Brasil já é considerado um dos piores países para se fazer negócios, já que não há muita estabilidade de regras. E que aconteceu na semana passada no STF [Supremo Tribunal Federal] só reforçou a insegurança jurídica que nós vivemos aqui”, ressalta Marcatti.

Efeito Lula

Na quinta-feira (07/11), o STF mudou de posição mais uma vez e definiu que os réus só podem ser condenados à prisão após o trânsito em julgado, ou seja, depois de esgotados todos os recursos. Desde 2016, o Supremo vinha entendendo que a execução da pena poderia ser feita em 2ª instância. Isso culminou na soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva logo no dia seguinte, na sexta (08/11).

Lula
Desde 2016, o Supremo vinha entendendo que a execução da pena poderia ser feita em 2ª instância. Isso culminou na soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva logo no dia seguinte (Imagem: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Para Marcatti, a instabilidade de regras e o baixo crescimento econômico do Brasil desde o final da recessão, em 2017, afastaram o capital externo dos projetos de infraestrutura no Brasil nos últimos anos. “Um dos exemplos dessa insegurança jurídica foi a famosa canetada, em 2013, que o governo Dilma deu para a reduzir [de forma artificial] as tarifas de energia elétrica”, diz Marcatti.

No dia 30 de outubro, por exemplo, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, rompeu, unilateralmente, o contrato com a Lamsa, concessionária privada responsável por administrar a Linha Amarela, via expressa que liga as zonas norte e oeste da capital fluminense. Naquele dia, o prefeito deu ordem para destruir as cancelas de pedágio da Linha.

“Nós começamos a construir os alicerces para recuperar o capital estrangeiro muito recentemente, desde o governo Temer: passando pelo processo de redução da taxa básica de juros [Selic], da inflação, até às reformas estruturais para elevar a produtividade e desburocratizar a economia”, diz Marcatti. “Por isso eu diria que o que está acontecendo no Brasil e na América do Sul não piora a nossa situação, pois já estamos mal. Na verdade, não ajuda melhorar”.

Percepção de risco

O professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Vinicius Vieira, acrescenta que os estrangeiros têm dificuldade de distinguir o que se passa no Brasil do que ocorre em outros países da América do Sul. Por isso, a instabilidade e protestos nos países vizinhos só ajudam a elevar a percepção de risco com relação ao Brasil.

Ao contrário de crises anteriores, não há a percepção de risco de pagamento da dívida pública. O CDS de 5 anos, conhecido como Risco Brasil, fechou essa segunda-feira aos 118 pontos, um dos menores patamares da história. O risco, segundo Viera, é político.

“Ainda que para nós isso soe estranho, há uma visão externa de que protestos, sejam na Bolívia, no Chile, ou em outro país vizinho, contaminam o clima no Brasil. Em parte, isso ocorre por sermos pouco internacionalizados”, opina Vieira. Por conta disso, o professor avalia que a percepção de risco com relação ao Brasil pode aumentar nos próximos dias, o que tende a prejudicar a atração de investimentos para as privatizações, especialmente por parte de países ocidentais.

Vieira comenta ainda que o mercado interpretou a soltura do Lula como um risco político, dado o aumento do dólar e a queda na bolsa. Na sexta (08/11), a cotação do dólar fechou em alta de 1,53%, a R$ 4,1635. Já a bolsa recuou 1,78%, marcando 107.628, 98 pontos.

Reformas no radar

O economista da Guide Investimentos, Victor Beirute, reforça que os últimos eventos aumentam a sensação de insegurança jurídica e imprevisibilidade com relação ao Brasil e aos emergentes, porém ele acredita que isso pode ser revertido ou amenizado caso o governo consiga seguir com as reformas no Congresso Nacional.

“A soltura do Lula, por exemplo, traz certa instabilidade sim. Mas se o governo conseguir encaminhar a agenda reformista, como as três PECs [Proposta de Emenda à Constituição] do Brasil Mais, isso tende a reduzir a aversão ao risco”, diz Beirute.

Por outro lado, ele avalia que o cenário para investimentos pode piorar caso o poder Executivo perca força de articulação política junto ao Legislativo ou se a soltura do Lula contribuir para um fortalecimento da oposição ao governo.

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O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, chegou a afirmar nesta segunda-feira (11/11) que a recente soltura do ex-presidente e a instabilidade na América Latina não irão atrapalhar o andamento das reformas no Congresso.

“Acho que, na verdade, eventualmente, você vai ter mais debates sobre as reformas, o que é bom. Quando você faz mudanças em uma sociedade, baseadas em um debate profundo, é bom, porque essas mudanças são com convicções, né?”, pontuou à Reuters.

Ele acrescentou, sobre eventual impacto da soltura de Lula que o país não precisa ficar tão preocupado sobre “quem são os atores políticos”.

No sábado, Lula fez um discurso fortemente crítico ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e a suas concepções econômicas.

“Acho que a gente não precisa ter receio, enfim, de ter um ‘político A’, ‘político B’, ‘político C’ (solto), isso não faz sentido”, afirmou Mansueto. “Você tem que colocar o debate no Congresso Nacional, e ver como isso evolui. Se houver resistência, você tenta explicar o porquê daquelas reformas. Se você convence a população e os parlamentares, você faz as mudanças. Se não, você não faz. É assim em uma democracia.”

Crise na Bolívia e mercado de gás

As turbulências na Bolívia também colocam em suspenso as negociações dos contratos de importação de gás natural pelo Brasil. O País quer renegociar esses contratos para reduzir o preço do combustível e, assim, começar a abrir o mercado para a concorrência aqui dentro.

Bolivia oposição
Morales renunciou ao cargo pressionado pelas Forças Armadas e por protestos de rua e horas após de a Organização dos Estados Americanos (OEA) comunicar que encontrou (Imagem: Facebook oficial de Luis Fernando Camacho)

Vieira, da FGV, vê que, neste curto prazo, o andamento dessas conversas fica prejudicado. Porém, ele afirma que, caso um governo liberal venha a assumir o país vizinho, há mais chances de o Brasil conseguir avançar nas negociações no médio e longo prazo.

Morales renunciou ao cargo pressionado pelas Forças Armadas e por protestos de rua e horas após de a Organização dos Estados Americanos (OEA) comunicar que encontrou, em uma auditoria, índices de fraude no processo eleitoral do dia 20 de outubro. Ele chefiou a Bolívia durante 13 anos e hoje aceitou asilo político do governo do México.

Última atualização por Rafael Borges - 12/11/2019 - 7:43

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