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Sidnei Nehme: BC tem correta percepção do momento, então, observa, age e “fala” com atitudes

Sidnei Nehme - 22/05/2018 - 12:58

Por Sidnei Moura Nehme, economista e diretor executivo da NGO

A postura do BC vem provocando muitos “ruídos” no mercado financeiro, visto que tinha como certa nova redução da taxa SELIC que não foi sancionada pela autoridade após sinalização anterior e, mesmo, quanto a aparente inoperância durante a fase mais aguda de depreciação do real, quanto esperavam um enfrentamento mais contundente.

No nosso entender as significativas mudanças desde a última redução da taxa SELIC até a última reunião que não sancionou nova baixa ocorreram e alteraram as perspectivas.

O nosso mercado financeiro cético e propagador que uma perspectiva que deixou de existir num curto espaço de tempo e que teve fatores externos contundentes que alteraram os cenários para os países emergentes, e mais, colocou os mesmos de forma isolada num contexto de auto-avaliação mais rigorosa sobre suas reais condições, parece que ficou com sua visão atrás da curva.

O impacto dos fatores externos mudaram os humores pró-emergentes e a forte dinâmica da economia americana colocou em foco a ocorrência de inflação e de ampla possibilidade de ação do FED elevando o juro, o que o próprio mercado americano acabou fazendo antecipadamente e de certa forma “atropelando” o próprio FED e elevando a taxa dos T-Bonds de 10 anos, que são referenciais, para 3%.

Com este nível de juro no mercado americano, o mercado global e principalmente nos emergentes ocorreu o desmanche de posições e o “fly to quality” na direção do mercado americano impondo forte valorização ao dólar.

Então, o impacto foi relevante nos mercados emergentes e suas moedas sofreram depreciações fortes. Cada qual teve o impacto na dinâmica dos seus mercados, afora o da taxa cambial, dependendo das suas reservas e instrumentos operacionais.

Neste quesito, o Brasil sofreu a pressão natural, sem, contudo ter havido, no primeiro momento, o “fly to quality”, mas provocando, face a mudança radical das projeções para o dólar no Brasil e a existência de volumosa exposição em dólar sem proteção com “hedge cambial”, e a estrutura operacional do nosso mercado de derivativos a busca forte e contundente pelos estrangeiros desta proteção, que acabou, em grande parte fomentada pela influência externa, a mudança de patamar do preço do dólar futuro que contaminou a taxa do mercado à vista.

A preocupação era proteger os recursos aqui locados, visto que o Brasil não tem risco de falta de liquidez, de vez que o BC tem mecanismos para suprir o mercado de câmbio sem necessariamente vender moeda, mas realizando financiamentos com operações de venda com recompra ao sistema autorizado a operar em câmbio.

No momento inicial, a pressão sobre o preço era totalmente fundamentada e sustentável pela influência externa da valorização do dólar no mercado global.

Então, o BC pouco tinha a fazer, sendo não recomendável o enfrentamento com a tendência forte e procedente, porém simplesmente observava a liquidez do mercado de derivativos e de câmbio.

O preço do dólar ganhou outro patamar de preço e para a causa não havia ação recomendada pelo BC, sendo natural que reconhecesse o fato e não articulasse nenhuma ação frontal com a tendência sustentável do mercado.

Contudo, começaram a haver sinais de que os fatores internos, o que o mercado financeiro não se apercebia tanto quanto o BC, que evidentemente não poderia enfatizar o fato, passavam a impactar na formação do preço.

O CDS (risco de calote) do Brasil subiu de 142 pontos para 200 pontos, e a desvalorização do real superava a média das desvalorizações das moedas emergentes, a despeito do Brasil ter estruturalmente um mercado de derivativos e câmbio bem melhor organizado e com liquidez do que os demais países emergentes.

O BC seguramente percebeu antes tudo isto, o que agora já é mais focado, e mais que a dinâmica da economia é desapontadora, que o emprego não reage (a despeito do contraditório entre IBGE e CAGED), que o PIB perde potencial e já não sugere as projeções atuais, quem sabe realisticamente uns 2%, que a redução do juro não está sendo repassada para o setor produtivo e que a propensão a investimentos pela indústria é baixa, que a crise fiscal só tende a se agravar e este é um fato da maior relevância para a atualidade e para 2019, etc e na ponta final que há uma total indefinição quanto à sucessão presidencial, que até o momento não destaca nenhum candidato reformista.

E que uma eventual redução da SELIC tornaria o país ainda mais desinteressante para os investidores externo dada a proximidade com a taxa americana e poderia incentivar até um movimento especulativo com o “hedge cambial”.

Então, tudo no seu devido tempo, o BC começou a agir na medida em que percebeu que os efeitos externos haviam criado um novo patamar de preço do dólar, mas haviam estabelecido seus efeitos e que já estava havendo contaminação dos fatores internos na formação do preço da moeda americana no nosso mercado.

Assim, não reduziu a SELIC e agora percebendo que o “input” de pressão na taxa cambial decorre de fatores internos atuais e em perspectiva resolveu pela intervenção mais contundente para conter eventual especulação. Naturalmente, houve um desarranjo no mercado de juros e de câmbio decorrente destes fatores internos, razão pela qual foi sinalizado que o Tesouro poderia atuar junto com o BC.

Entendemos que a ação do BC visa “pôr relativa ordem na casa”, mas naturalmente, após o impacto inicial do rearranjo, a moeda americana manterá o viés de alta, pois há muitas dúvidas e incertezas em perspectiva no Brasil.

O próximo passo do BC deve ser ofertar linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra para dar suporte a liquidez do mercado de câmbio, visto que deve se acentuar a saída de recursos de investidores externos, o que poderá ser observado parcialmente amanhã com a divulgação do fluxo cambial pelo BC.

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