Raízen (RAIZ4): Ações chegam a desabar 17% com recuperação extrajudicial; o que trouxe a companhia até aqui?
As ações da Raízen abriram o pregão desta quarta-feira (11) em forte queda, após a companhia anunciar pedido de recuperação extrajudicial. As ações RAIZ4 chegaram a cair mais de 17% na primeira hora e pregão, valendo menos que R$ 0,50. No entanto, o movimento virou para alta e os papéis chegaram a subir 3%.
A companhia, que é uma joint venture formada pela Cosan e Shell, é acompanhada de perto pelo mercado devido à uma aguardada reestruturação de dívida e possíveis aportes de seus controladores.
Na noite de terça-feira (10), veio o pedido de recuperação extrajudicial para suspensão por 90 dias o pagamento de dívidas que somam cerca de R$ 65 bilhões. Protocolado no Tribunal de Justiça de São Paulo, o movimento busca três meses de fôlego para conseguir se reorganizar e avançar na negociação com credores.
De acordo com fato relevante desta quarta-feira (11), a recuperação extrajudicial teve estrutura consensual entre o grupo Raízen e conta com a adesão de 47% dos credores envolvidos na negociação.
Agora, a companhia tem 90 dias para buscar o percentual mínimo necessário para a homologação do plano, que exige mais da metade.
Cerca de metade da dívida está nas mãos de bancos, enquanto a outra metade pertence a investidores do mercado de capitais, incluindo bondholders, detentores de CRAs e debenturistas.
O que está na mesa?
O plano da Raízen para uma reorganização do seu balanço poderá envolver uma série de medidas, entre elas uma capitalização do grupo pelos seus acionistas, a conversão de parte das dívidas em participação acionária na companhia e a substituição de parte dos créditos por novas dívidas.
Também estão na mesa reorganizações societárias para dividir parte dos negócios atualmente conduzidos pela Raízen e a venda de ativos da companhia.
A Raízen enfatiza que o processo tem escopo apenas financeiro e não abrange as dívidas e obrigações do Grupo Raízen com clientes, fornecedores, revendedores e parceiros de negócios considerados essenciais para a operação e continuidade das atividades, que permanecerão vigentes.
Com as dívidas envolvidas estimadas em R$ 65 bilhões, o pedido da Raízen ocupa o posto o maior processo de recuperação extrajudicial em andamento no Brasil neste momento.
Como a Raízen chegou até aqui?
A Raízen viu seu endividamento se elevar com o movimento de aquisição de empresas e investimentos em novos projetos de energia que não entregaram o retorno esperado. Há ainda o fator juros elevados, que pesam nas despesas financeiras da Raízen.
A produtora global de açúcar e etanol investiu em negócios não relacionados ao seu ‘core‘, como o etanol de segunda geração e a rede de lojas de proximidade Oxxo, em parceria com a Femsa. No entanto, a partir da safra 2024/2025, o cenário de secas, queimadas e excesso de chuva reduziram moagem, produtividade e qualidade da cana-de-açúcar.
A companhia também vem sofrendo com a deterioração do perfil de crédito, após sucessivos rebaixamentos pelas agências S&P Global Ratings, Moody’s e Fitch Ratings, levando a uma elevação do custo de capital e redução da previsibilidade financeira.
No mês passado, o CEO da Raízen, Nelson Gomes, chegou a afirmar que as controladoras da joint venture, Shell e Cosan, estariam comprometidas em injetar capital na companhia para lidar com a alta alavancagem, que atingiu 5,3 vezes nesse trimestre.
À época, Gomes reforçou que a companhia chegou a um ponto de inflexão onde a execução operacional de forma isolada não é suficiente para mitigar o desequilíbrio da estrutura de capital. “Os controladores se comprometeram a contribuir capital dentro de uma solução consensual, estruturante e definitiva”, disse durante teleconferência de resultados do 3T26.
O executivo ressaltou que a companhia espera concluir a venda de seus ativos na Argentina no final do ano-fiscal 2026, que, segundo analistas, poderia render cerca de US$ 1,6 bilhão.
Ele também destacou a volta do foco da companhia no seu core business, ou seja, a produção de açúcar e etanol, além da distribuição de combustíveis e lubrificantes. O CEO também falou sobre a revisão do escopo de operação de trading, com foco em retorno, redução de risco e volatilidade.
Cosan e Shell dividem participação de 44% cada na Raízen, enquanto outros 12% estão no mercado.
Na última semana, a companhia afirmou que estava em análise a proposta de uma contribuição de capital de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões do Grupo Shell e R$ 500 milhões de um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos S.A., ligada à família de Rubens Ometto, controlador da Cosan.
Safra 3T26
Em 13 de fevereiro, a Raízen reportou um prejuízo líquido de R$ 15,65 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/2026 (3T26) contra um prejuízo de R$ 2,57 bilhões no terceiro trimestre da safra 2024/2025 (3T25).
“No 3T 25/26, o resultado refletiu o impacto pontual (sem efeito caixa) no montante de R$ -11,1 bilhões relacionado a constituição de provisão para não realização (sem efeito caixa) de determinados ativos”, informou a empresa em comunicado divulgado ao mercado.
A administração da Raízen afirma que, desconsiderado esses impactos não recorrentes, o prejuízo do período teria totalizado R$ 4,5 bilhões.
O Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) foi negativo em R$ 4,4 bilhões, contra um resultado positivo de R$ 2,55 bilhões do 3T25.
A receita líquida ficou em R$ 60,4 bilhões no 3T26, versus R$ 66,8 bilhões do mesmo trimestre da safra passada, queda de 9,7% em relação ao ano anterior.
Segundo a empresa, o desempenho foi prejudicado por um ambiente macroeconômico adverso, incluindo impactos negativos sobre a produtividade agrícola e, mais recentemente, sobre os preços do açúcar e do etanol.
A dívida líquida da companhia saiu de R$ 38,6 bilhões no 3T25 para R$ 55,3 bilhões, com a alavancagem (Dívida Líquida/Ebitda) saltando de 3 vezes para 5,3 vezes no mesmo comparativo.
“Em decorrência da deterioração de crédito, como evidenciado pelo rebaixamento dos deus ratings corporativos pelas principais agências nacionais e internacionais, a Companhia precisou aplicar determinados procedimentos contábeis que resultaram em um impairment de R$ 11,1 bilhões“, afimou a empresa.