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Petrobras: Por que a paridade de preços internacional fracassou

Gustavo Kahil - 26/05/2018 - 18:03

Não era difícil prever essa crise, as regras eram claras. Mas por que essa crise estourou aqui e não em outros países que seguem exatamente a mesma política, que parece, aliás, muito justa?

A política chamada PPI – Paridade de Preços Internacionais funciona em todos os países onde é aplicada. Mas aqui qual a diferença?

Como em tudo – é preciso olhar os detalhes – que nem são tão pequenos assim no nosso caso. O Brasil, vale lembrar, por ser uma economia muito isolada do mundo sempre vai possuir alguma especificidade, que não é igual ao resto do mundo. O PPI funciona, mas aparentemente foi feito de forma descuidada:

A volatilidade do real é muito grande

O PPI funciona em outros países pois poucas moedas tem a mesma volatilidade do Real. Não é comum em grandes economias, mesmo subdesenvolvidas, terem variações de por exemplo -20% na moeda de uma forma tão frequente como no Brasil. Nem o Rublo ou a Lira Turca varia tanto como o Real. Um dos motivos é o próprio isolamento da economia brasileira, mas isso é outra discussão.

Quando o PPI foi definido (2º semestre 2016), passávamos por uma volatilidade dos preços do petróleo (em dólar) e um real razoavelmente estável e até valorizando. Durante 2017 o real ficou extraordinariamente estável, e em níveis valorizados historicamente. Era só uma questão de tempo até o aumento da moeda.

Ou estavam contando com a sorte ou realmente ficaram temporariamente míopes em relação à variação da moeda. O fato é que um aumento de 20% na moeda, combinado com +10% ou 20% no petróleo traria efeitos combinados excessivos. Era só uma questão de tempo.

A logística alternativa ainda não se desenvolveu

O mercado de combustíveis no Brasil há muito tempo já é liberado, inclusive para importação. Entretanto a Petrobras ainda é quase monopolista. Até antes do PPI a estatal conseguia controlar os preços, mesmo em um ambiente competitivo, “sufocando” os competidores. E fazendo dumping nas regiões onde competição e importação aparecesse. O resultado foi desestímulo à competição e consequentemente atrofia da logística de competição à Petrobras.

Qual empresário investiria em um porto de importação de combustível e dutos / bases de distribuição se a Petrobras pode controlar os preços? Inclusive agora o subsídio à Petrobrás mais uma vez está desestimulando a competição. Quem contratou um navio de diesel dias atrás para trazer para o Brasil vai precisar devolver ou mudar a rota da carga. Ao chegar aqui o diesel à preços internacionais, terá que competir com o diesel subsidiado da Petrobrás. Será mais um empresário frustrado e desincentivo à competição para a Petro.

O PPI é puro, sem nenhum ajuste

Os países que aplicam o PPI reconhecem os riscos, e aplicam a política com pequenos ajustes. Mesmo que outros preços da economia também sigam naturalmente o PPI pelos seus importadores, em qualquer economia, o combustível é sempre mais sensível. Os consumidores acompanham seus preços na vírgula, compram semanalmente e o consideram como um indicador fundamental do seu bem-estar.

Nada foi feito para evitar esses riscos. Mesmo em países com PPI similares ao Brasil, os reguladores (seja equivalente à ANP ou CADE), tomaram medidas preventivas em relação ao possível aumento súbito de preços. Exemplos são, utilização dos estoques reguladores, hedge de moedas, publicação e publicidade de preços de todos os elos da cadeia para estimular competição e limitação / previsibilidade da frequência do aumento de preços. Lembrando que a limitação é necessária para o aumento pois essa é sempre feita de forma imediata – e a redução, sempre bem mais lenta (rocket feather effect)

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