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Patrimônio arquitetônico da Venezuela desmorona com a economia

28/09/2019 - 11:04
Venezuela
A capital Caracas abriga grande parte desse patrimônio, especialmente as construções Art Déco, Bauhaus e brutalistas que a tornaram um centro da arquitetura moderna na região (Imagem: Leandra Felipe/ Agência Brasil)

À medida em que a Venezuela afunda na crise, centenas de obras padecem junto.

O devastado país, que já foi o mais rico da América Latina, é uma vastidão de estruturas: estacionamentos usados ​​como abrigo, edifícios coloniais, obras socialistas inacabadas, complexos improvisados ​​de favelas, shoppings sem clientes. Mas centenas de edifícios notáveis ​​foram abandonados ou destruídos.

A capital Caracas abriga grande parte desse patrimônio, especialmente as construções Art Déco, Bauhaus e brutalistas que a tornaram um centro da arquitetura moderna na região, juntamente com a Cidade do México, Brasília e Rio de Janeiro.

“A arquitetura moderna em Caracas é impressionante. É uma das principais características desta cidade”, disse Hannia Gómez, arquiteta e diretora da filial venezuelana da Docomomo, uma organização internacional sem fins lucrativos dedicada à conservação de edifícios modernos. “Mas grande parte desse patrimônio está muito deteriorado.”

Entre os exemplos mais eloquentes está a Ciudad Universitaria de Caracas, classificada como Patrimônio Mundial pela UNESCO. O campus possui obras de arte de Victor Vasarely e Fernand Léger. Os painéis acústicos em forma de nuvem na sala de concertos Aula Magna são considerados uma obra-prima do escultor Alexander Calder.

Mas a universidade se tornou uma exibição de fachadas decrépitas, cacos de vidro e paredes cobertas de pichações. O lixo não é coletado, e as plantas não são podadas. O campus com frequência se torna um campo de batalha entre estudantes da oposição e grupos armados leais ao presidente Nicolás Maduro.

Nem todo o patrimônio arquitetônico de Caracas está em frangalhos. Alguns edifícios coloniais controlados pelo governo no centro da cidade, datados do século XVII, estão abertos para visitas. O mesmo acontece com a modernista Villa Planchart, de propriedade particular, projetada por Gio Ponti, o arquiteto italiano também responsável pela segunda encarnação do Museu de Arte de Denver.

O Tamanaco, um hotel em forma de pirâmide, inaugurado na década de 1950, está bem conservado e ainda recebe hóspedes.

A arquitetura moderna na Venezuela floresceu entre as décadas de 1950 e 1970, graças a uma combinação de fatores: o boom do petróleo e a migração da Europa.

“Muitas famílias que vieram eram pessoas instruídas da Itália, Espanha e Portugal”, disse Miguel Miguel Garcia, curador, pesquisador e crítico de arte de Caracas.

O investimento na arquitetura moderna foi reduzido após repetidas crises econômicas na década de 1980. A ascensão do chavismo na década seguinte teve efeito misto: sob a presidência de Hugo Chávez (1999-2015), membros do governo e especialistas realizaram o primeiro e único inventário do patrimônio cultural da Venezuela. Isso significou novas regras de preservação que restringiam as reformas – e irritavam os proprietários.

Mas as leis são vagas e a fiscalização é menos rigorosa para imóveis de simpatizantes do governo, segundo Melin Neva, arquiteta e integrante da ONG Paisaje Ciudad Ciudadania, que promove o patrimônio urbano de Caracas. As autoridades nunca apoiaram financeiramente os esforços de preservação, disse Neva.

Embora os governantes socialistas tenham conservado pelo menos as fachadas de alguns edifícios mais antigos, negligenciaram o modernismo, que associam a valores estrangeiros, disse Neva.

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O Ministério da Cultura e o Instituto do Patrimônio Cultural da Venezuela não responderam a pedidos de comentários.

Após a morte de Chávez, em 2013, a economia começou a afundar em meio a uma queda dos preços do petróleo e ao acúmulo de anos de má administração e corrupção. A fome, a hiperinflação e o crime levaram 4,3 milhões de pessoas a sair do país, segundo dados da ONU até agosto. Caracas está cheia de propriedades vazias.

“A sociedade está tão absorvida pelos problemas que ninguém presta atenção à preservação”, disse Neva, acrescentando que é um erro considerar o patrimônio menos importante do que alimentos e medicamentos. “Sociedades devastadas podem superar períodos sombrios graças à conscientização do valor de seu patrimônio. O patrimônio é a reserva moral que permite a retomada do desenvolvimento.

Última atualização por Vitória Fernandes - 27/09/2019 - 15:31