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Inovação

Opinião: O que as bandas dos anos 1990 podem ensinar sobre inovação

Opinião - 09/11/2017 - 12:49

Por Danilo Vivan, gerente de comunicação estratégica, relações com a mídia e RP

A ascensão da geração dos anos 1990 do pop rock brasileiro – que guardadas as diferenças de estilo, inclui bandas como Raimundos, Skank, Pato Fu e o disco Roots, do Sepultura –, contada no documentário “Sem Dentes” (aqui o trailer), diz muito sobre inovação.

O sucesso foi o resultado de uma tempestade perfeita, que teve ingredientes como o esgotamento criativo da geração dos anos 1980 (como reconhece o guitarrista do Legião Urbana, Dado Villa Lobos), a consolidação do CD como mídia e uma molecada cheia de vontade de experimentar, misturando sons tão distintos quanto Metallica e Dominguinhos. No centro dessa história, o selo Banguela Records, uma espécie de filhote da gravadora Warner,  independente a ponto de permitir a gravação da metralhadora de palavrões e do som pesadíssimo de ‘Raimundos’ (1994), álbum de estreia da banda brasiliense que emplacou um disco de ouro. E, no comando do Banguela, o gaúcho Carlos Eduardo Miranda (aquele que depois, foi jurado do programa Ídolos, do SBT) e os Titãs.

Para além do registro histórico em si, como foi dito, o documentário traz lições do ponto de vista da inovação. A primeira é a de que, para ser, de fato, inovador, às vezes é preciso dar espaço a quem não tem muito a perder. Algumas das maiores histórias de inovação começaram com moleques cheio de ideias e quase nenhum dinheiro e, por isso, dispostos a arriscar. Foi assim, por exemplo, com Phil Knight, da Nike (cuja biografia foi resenhada aqui), que resolveu vender tênis de corrida na década de 1960, quando ninguém falava em praticar exercícios. E foi assim com os moleques dos Raimundos, que, no início dos anos 1990, começaram a fazer rock de um jeito diferente, misturando guitarra com o forró de duplo sentido do sanfoneiro Zenilton.

Segunda lição: dinheiro pode fazer a diferença. Soa romântico e lindo imaginar garotos cheios de ideias num porão pensando na próxima revolução – pense em Jobs e Wosniak nos primórdios da Apple. Mas sem o mundo engravatado dos investidores (e os números aparentemente enfadonhos da macroeconomia), a maioria dessas revoluções não teria passado da porta das garagens. Voltando à Nike, a empresa do Oregon só se consolidou como gigante quando abriu o capital em 1980, como reconhece o próprio Knight. No caso de “Sem Dentes”, o dinheiro entrou de forma mais discreta. A estratégia da Warner foi criar o que seria conhecido hoje como uma espécie de spin off, justamente o Banguela. Lá, a molecada tinha um tutor (Miranda) e, sobretudo, apoio financeiro pra gravar e, depois, distribuir os discos – questão importantíssima naqueles tempos pré Youtube. Mais que isso, o Brasil acabara de entrar na Era de bonança pós-Plano Real. Dois dos discos de maior sucesso dessa geração, ‘Raimundos’ e ‘Calango’, do Skank (que vendeu 1,2 milhão de cópias) foram ao mercado em 1994, ano de lançamento do Plano Real. Com o salário (ou a mesada) menos atacados pela inflação, a molecada correu para as prateleiras das lojas, onde o vinil era rapidamente substituído por uma nova mídia, o CD. E aqui vamos para a terceira lição…

A inovação certa na hora certa. Voltando à Nike, a ideia maluca de Phil Knight só se tornou viável porque, enquanto ele e o treinador, Bill Bowerman, desenvolviam os primeiros tênis inovadores (derretendo borracha numa máquina de waffles), os “americanos saíam do sofá”. Assim, o rock dos anos 1990 só foi o sucesso que foi porque havia um macroambiente para isso. O CD era uma novidade e já havia uma geração de técnicos com expertise para  gravar rock, como lembra o jornalista André Forastieri – diferentemente, por exemplo, dos tempos de bandas como o Made In Brazil. Por fim, a MTV dava seus primeiros passos no País, abrindo espaço para as bandas ditas independentes (“não queríamos só os medalhões dos anos 1980 e a MPB de sempre”, diz um executivo no documentário) e dando espaço para grupos além do eixo Rio-São Paulo-Brasília, como lembra o mineiro Samuel Rosa, do Skank. Foi o que permitiu, por exemplo, a ascensão das bandas de Recife e do próprio Skank.

Quinta lição: para que uma inovação emplaque, muitas apostas ficarão pelo caminho. Para que Raimundos, Skank, Pato Fu e Sepultura se consolidassem, dezenas de outras bandas não emplacaram. O grupo mais promissor daqueles anos e grande aposta de críticos e dos executivos eram os brasilienses do Litle Quail and The Mad Birds. Outras promessas, como Concreteness e o próprio Mundo Livre também não vingaram comercialmente. É assim com novos modelos de tênis, gadgets tecnológicos, medicamentos…quem busca inovar tem de saber lidar com as inevitáveis perdas decorrentes de apostas erradas.

Última lição: às vezes é preciso um maluco para a inovação emplacar. Na história da Nike, o ex-corredor Jeff Johnson foi tratado como louco quando criou a primeira loja conceito na Califórnia. Em “Sem Dentes”, Miranda é mostrado como um rockeiro das antigas, um tiozão com vocabulário carregado de gírias e palavrões. Mas ele foi a figura-chave para a Banguela. Com um conhecimento do comportamento e da linguagem daquela molecada, experiência na produção de álbuns e um faro para o que poderia ou não fazer sucesso, insistiu com os executivos para que bancassem os Raimundos, chegando, inclusive, a emplacar uma matéria de página inteira na Folha de S. Paulo sobre o lançamento da Banguela antes, mesmo, de a gravadora existir – o que lhe rendeu uma enorme dor de barriga e fez com que tivesse de acelerar o processo para pôr a empresa de pé. Longe do comando dos Titãs (que voltaram a se dedicar à própria banda), Miranda depois acabou perdendo a mão e lançando uma dezena de bandas que não deram em nada, o que contribuiu para a Warner decretar o fim do Banguela, em 1995.

A virada do mercado fonográfico a partir dos anos 2000 com o surgimento do Youtube e dos apps de música por streaming, como Spotify e Deezer e, mais recentemente, a ascensão do funk e do sertanejo universitário, fizeram com que o rock perdesse espaço e se tornasse um estilo sem novidades do ponto de vista comercial. Como reconhece Samuel Rosa, o estilo não soube se reinventar ou preparar sucessores (outra lição para o mundo corporativo). Mas fica a lição de que a inovação pode estar na garagem do filho do seu vizinho. Mas, pra se tornar uma inovação de verdade, precisa de um ambiente favorável e, talvez, de algum maluco que aposte nisso.

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