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Economia

O novo normal do Brasil

Paulo Gala - 18/06/2017 - 15:52

Paulo Gala é doutor em economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP) e economista da Fator Administração de Recursos – Autor do livro “Complexidade Econômica”

O mundo desenvolvido não consegue crescer na velocidade de outros tempos, o desemprego europeu é enorme, os empregos criados nos EUA desde 2008 remuneram mal e a participação dos americanos na forca de trabalho ainda e’ baixa para padrões históricos. Os países emergentes não conseguem crescer para atingir o grupo de economias desenvolvidas: Brexit e Trump são frutos desse mundo de “estagnação secular” ou de “novo normal”.

É importante lembrar que um dos pilares do “new normal” sempre foi a recusa no uso do gasto público como estímulo legítimo de demanda no curto prazo, especialmente, no tocante a investimentos em infraestrutura. Em meados de 2013, o próprio Bernanke apontava também os temores em relação ao efeito contracionista no PIB dos cortes de gastos públicos nos EUA. Apesar de clamores por uma política fiscal mais expansionista), nenhum governo teve a coragem de ir adiante com essa agenda. 

Na Europa, a introdução da moeda única provocou quedas nas taxas de juros, booms de consumo, endividamento e bolhas imobiliárias nesses países. Não houve progresso de fato com upgrading industrial e aumento de capacidades locais de produção. As rendas per capita subiram, depois caíram e agora estão estagnadas. A crise no sul continua e continuará. Passada a euforia de renda per capita dobrada, explosão imobiliária e de infra-estrutura ficaram as dividas.

O setor privado e público dos PIGS está muito endividado. Portugal e Espanha passam por recuperações moderadas depois de anos de estagnação, mas estão ainda aquém dos patamares de produção observados antes da crise de 2008. Os governos dos PIGS têm enorme dificuldade em fazer políticas anticíclicas por conta do tamanho das dívidas publicas. Abriram mão da política cambial (não tem mais moeda), não podem fazer política fiscal e estão endividados;a política monetária é do banco central europeu. O único mecanismo de ajuste que lhes restou foi a deflação interna.

Por que o mundo não cresce mais como antigamente?

A meu ver dois fenômenos da última década ajudam a explicar essa nova estagnação secular: excesso de dívida e excesso de oferta. A explosão do endividamento público e privado vem já desde os anos 90, tendo certamente os EUA como motor principal. O motor da renda foi substituído pelo motor do crédito. Ninguém tem ativos, tudo é colateral de dívidas. A sobreoferta mundial tem a ver com a ascensão da asia dinâmica do leste. Só a China hoje conta com mais de 100 milhões de trabalhadores produzindo bens manufaturados, tendo saído praticamente do 0 em 1980. A capacidade ociosa da economia chinesa, europeia e americana é enorme. A consequência disso é inflação baixa permanente, que provoca juros baixos, que por sua vez não são capazes de estimular novos investimentos, nem novo endividamento.

O mundo entrou num looping vicioso e Brasil caminha para a mesma trajetória. Não há demanda pela via do investimentos como no passado, a guerra cambial também não funciona mais num mundo sobreoferta. Governos altamente endividados não tem coragem de acionar o gatilho do investimento público. O mesmo raciocínio pode ser transposto para o Brasil, só que em níveis de taxas de juros nominais e reais ainda muito elevados. Se estivermos mesmo no “novo normal” por aqui, nada de juros altos por um bom tempo agora.

O ano de 2016 marcou o final do longo processo de crescimento no Brasil baseado no modelo CCC (crédito, commodities e consumo) iniciado ainda em 2003, e potencializado por políticas anticíclicas no pós-crise de 2008. A forte alavancagem das empresas e famílias brasileiras criou novos patamares de divida, com juros muito mais elevados do que a média mundial.

A alavancagem de crédito (imobiliário e não imobiliário) provocou um boom de consumo e um boom de construções imobiliárias, resultando em grande aumento de endividamento e oferta de imóveis. Os investimentos foram todos direcionados para o setor de non-tradables (prédios comerciais, residenciais e shopping centers). As desonerações agravaram o problema injetando demanda agregada e complicando a situação de contas públicas.

Os salários nominais e reais não repetirão o comportamento exuberante dos últimos anos e os preços dos imóveis tendem a se estabilizar, se é que não continuarão a cair em alguns setores com importante excesso de oferta. O final do boom imobiliário brasileiro e o arrefecimento do varejo e consumo em geral e do mercado de trabalho tiram pressão dos preços de serviços e facilitam o controle da inflação. O país tem uma situação de excesso de oferta generalizado nas indústrias, no setor imobiliário, no varejo e no mercado de.

Olhando para o futuro são escassos os sinais de demanda: câmbio abaixo de R$3,50 provocará pouco impulso em nosso setor industrial, seja pela via de exportações ou substituição de importações. Teto do gasto e ajuste fiscal permanente inibem qualquer possibilidade de investimento publico contra-cíclico. Níveis de utilização de capacidade instalada nas mínimas e excesso de oferta por todos os lados não estimularão investimentos.

Resta algum alento para o consumo com taxas de juros menores decorrentes do ciclo de afrouxamento monetário e algum gasto privado vindo da recuperação dos níveis de confiança. O crédito poderá apresentar expansão, ainda assim modesta. Nossas taxas de crescimento do PIB, indústria e varejo dos próximos anos serão baixas, sequer suficientes para recuperarmos o nível de produção e renda observados há 10 anos.

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