‘Não adianta querer acabar com os fósseis. O nome do jogo é eficiência e não vamos atingir net zero em 2030′, afirma Ricardo Mussa, chair da SB COP30 e ex-CEO da Raízen (RAIZ4)

O ex-CEO da Raízen (RAIZ4), Ricardo Mussa, deixou a companhia no fim de 2024 e, desde o começo deste ano, tem se dedicado a liderar a SB COP30 (Sustainable Business COP30), iniciativa do setor produtivo liderada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O grupo busca uma mobilização das empresas nacionais e internacionais para uma participação mais efetiva na COP30, que acontece em Belém em novembro.
No ano passado, ele também comandou a Força-Tarefa de Transição Energética e Clima do B20 (Business 20), que reuniu representantes de empresas e organizações empresariais dos países membros do G20, e que agora está na África do Sul.
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“O B20 foi um super sucesso, porque a função dele é auxiliar o G20 nas discussões e a levar recomendações para o G20. Se você olhar no documento final do G20, quase 70% das recomendações feitas pelo B20 estavam no documento final”
Mussa lembra que as COP’s são eventos que envolvem pouco o setor privado, sendo um processo que envolve governos.
“Hoje não existe uma maneira organizada do setor privado participar e auxiliar nas discussões que acontecem na COP e daí surgiu a ideia de fazer para COP exatamente o que o B20 fazia pro G20. Unificar o setor privado em torno de uma agenda, levar recomendações antes do evento e ajudar a influenciar essas negociações”.
Como líder do SB COP30, ele reforça que a diferença para o G20 é que são mais de 200 países, o que torna a tarefa de unificar o setor privado mais complexa.
Entre os membros que também compõem essa força-tarefa, estão:
- Transição energética – Daniela Manique, da Solvay-Rhodia
- Economia circular e materiais – Tércio Borlenghi, da Ambipar
- Bioeconomia – João Paulo Ferreira, da Natura
- Sistemas alimentares – Gilberto Tomazoni, da JBS
- Empregos e habilidades verdes – Rafael Segrera, da Schneider Electric
- Financiamento climático – Luciana Ribeiro, da eB Capital
- Cidades sustentáveis e resilientes – Ruben Menin, da MRV
“É um grupo de altíssimo nível, com auxílio das consultorias como McKinsey, Deloitte e BCG. O trabalho já começou e eles já começaram a selecionar os países e empresas, os CEOs que vão participar. Essa decisão deve sair até semana que vem. Na COP, há muita boa vontade, mas é muito descoordenado. É uma ‘torre de babel’, uma negociação super complexa. Por isso, estamos nos organizando ”.
Os reflexos das políticas de Donald Trump
Há 7 meses da COP30, Mussa reforça que as mudanças políticas de Donald Trump, como a saída do Acordo de Paris, e a guerra comercial, também está afetando as discussões sobre o clima, e que este fato não pode ser ignorado.
“Antes disso, o pêndulo das discussões estava de um lado e agora está de outro. A gente começa a ouvir de novo alguns negacionistas e eu acho que a minha intenção, liderando esse grupo, é encontrar um ponto de equilíbrio, porque não podemos ignorar que a transição energética é, sim, mais cara e tem impactos na economia”, afirma.
Para o líder do SB COP30, a transição energética precisa ser rentável e construída com metas objetivas e reais.
“Essa é uma COP que precisamos mostrar mais ação e mostrar que o setor privado tem muita tecnologia e soluções para ajudar. Precisamos um reset do mindset, olhar metas mais realistas e não esperar que o clima vá se consertar sozinho, porque não vai acontecer. É preciso encontrar um meio-termo para continuarmos caminhando”.
Os combustíveis fósseis e os avanços para transição energética
Perguntado sobre os combustíveis fósseis, que hoje respondem por 80% das emissões no mundo, Mussa reforça que não dá para acabar com o seu uso.
“Não dá para pensar em um mundo sem os combustíveis fósseis por enquanto. Não dá. Essa é uma realidade que foi posta à prova com a guerra na Ucrânia. Precisamos encontrar um caminho para chegar lá, e não é acabando ou demonizando os fósseis. O próprio nome fala: transição energética. Não é algo que você faz do dia para a noite”.
Segundo ele, é preciso encontrar uma maneira de continuar crescendo os renováveis, reduzindo a dependência dos fósseis, assim sua pegada de carbono, buscando maior eficiência nos processos.
“Não pode haver radicalismo do tipo ‘vamos parar com tudo amanhã’. Não dá. Precisamos encontrar essa ponte e a tecnologia tem muito a ver com isso. Se você olhar a expansão da energia solar desde o início das COPs, é incrível. Quem iria imaginar? Há claros avanços, mas é nítido que não tem sido suficiente”.
Pegando o gancho da guerra tarifária, Mussa acredita que há muitas políticas individualistas dos países ao redor do mundo que acabam com que os investimentos não tenham o seu destino correto. Ele também lembra os projetos que não deram certo e os que estão atrasados, como é o caso do hidrogênio.
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“Quando eu estava na Raízen, via o etanol brasileiro saindo daqui para os EUA para ser convertido em SAF e depois ser enviado para Europa. Uma logística completamente equivocada que emitia até mais carbono, porque nos EUA você tinha um incentivo à produção local. Se fosse feito esse investimento no Brasil, eliminaria uma ‘perna’ de frete. O mundo ser dividido não otimiza o processo como um todo”.
O chair do SB COP30 também elogia a política de etanol na gasolina do Brasil, mas acredita que ela poderia ser feita de outra forma.
“Você tem a mesma mistura em São Paulo e no Acre. Será que isso é o melhor? Será que você não poderia, ao invés de 27,5% aqui em São Paulo, não poderíamos aumentar para 28% e no Acre ter menos? Você vai ter o mesmo efeito ao invés de ter que ficar mandando etanol para o Acre, que vai poluir no meio do caminho. Essa é uma lógica que, se você olhasse um sistema único, tomaria melhores decisões”.
Ele salienta que o mundo é tão dependente dos combustíveis fósseis que a saída não só o etanol, biodiesel ou energia elétrica.
“São várias coisas, inclusive a energia nuclear. Eu conheci alguém que entende muito de energia e ele me mostrou que a demanda do mundo para petróleo, se você se multiplica a Raízen por 200 a companhia, você tinha 0,6% da demanda global do petróleo. Por isso que não adianta acabar os fósseis, ele nos trouxe avanços enormes. Precisamos encontrar maneiras de fazer essa transição, tornar os fósseis mais eficientes, o carro mais eficiente, a exploração mais eficiente. O nome do jogo é eficiência, e é essa a principal recomendação do SB COP”.
“Não adianta ter radicalismo e não adiante que vamos fazer net zero em 2030, porque não vai acontecer e vamos nos frustrar com isso. Precisamos utilizar melhor os recursos para projetos que dão mais retorno e mais impacto no curto prazo”, completa
O papel do Brasil na COP30
Para Mussa, na discussão do clima, o Brasil está do lado da solução e não do problema.
“A vantagem de ter a COP no Brasil é estar na frente desse processo. Temos muitos problemas, questões para resolver como a Amazônia e o desmatamento. Não digo que está tudo bem, mas na COP, temos mais a ensinar. Somos uma liderança genuína. Mas não sou inocente de achar que será fácil, acredito que será uma COP super complexa, dado a Guerra da Ucrânia e essas guerras comerciais”
Ele ressalta que uma COP na Amazônia tem um simbolismo muito grande, além de destacar a produção elétrica renovável do Brasil, uma frota flex que utiliza o etanol há anos sem subsídios e um crescimento em energia solar.
“O Brasil é um país muito amistoso, a gente nunca entra em guerra com ninguém. O papel do André Corrêa do Lago e o meu aqui na SB COP é encontrar esse meio-termo e mostrar que tem um caminho. Que não é 8 ou 80. Vamos ser escutados porque lideramos pelo exemplo”.