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Marink Martins: Jack Bogle e as 3 feridas narcísicas na indústria da gestão ativa

Opinião - 20/01/2019 - 17:15

Por Marink Martins, do blog MyVol e autor da newsletter Global Pass

Na última quarta-feira, dia 16/1, faleceu Jack Bogle, fundador do The Vanguard Group, a maior gestora de fundos mútuos do mundo e segundo maior gestor de ETFs. A empresa administra hoje 5.1 trilhões de dólares.

Ao ouvir Warren Buffet e muitos outros discursarem sobre o impacto disruptivo provocado por Bogle ao lançar, em 1976, o primeiro fundo passivo atrelado ao índice S&P 500 direcionado ao público em geral, me veio a mente a ideia de que o pioneiro gestor provocou no mercado de gestão ativa uma espécie de ferida narcísica com paralelos com aquelas enunciadas por Sigmund Freud.

Uma breve pesquisa aponta que Freud teria tomado os conceitos associados ao que ficou conhecido como As 3 feridas narcísicas freudianas emprestado do médico alemão Emil du Bois-Reymond. Mas, não cabe a mim aqui explorar tal polêmica. O importante é que o leitor tenha em mente que a primeira está associada ao fato de que Copérnico nos tirou do centro do universo, que Darwin nos tirou a ilusão de divindade, e que o próprio Freud nos disse que o Eu não é senhor de sua própria morada (Ele fez com que o mundo abrisse espaço para o Inconsciente).

Trazendo esta analogia para o mundo da gestão ativa, aquela função desempenhada por cidadãos extremamente inteligentes, capazes de antecipar tendências globais e gerar retornos superiores aqueles praticados pela média do mercado (desculpem-me pelo tom irônico), podemos dizer que Jack Bogle desferiu um golpe a esta classe de magnitude copernicana.

Mesmo assim, o crescimento populacional e econômico norte-americano durante as duas décadas subsequentes foi tão significativo que a indústria de gestão ativa pode crescer lado a lado com a de gestão passiva, de forma que ambas ganhassem bastante dinheiro.

Por um bom tempo, com as taxas de juros mais elevadas e com os custos de corretagem ainda nas alturas, os gestores ativos conseguiam emplacar o seu modelo de cobrança de 2/20 sem maiores problemas.

A chegada da internet e a digitalização das corretoras, entretanto, fez com que os custos associados a corretagem despencassem ao mesmo tempo em que o leque de produtos disponíveis ao público em geral crescesse de forma significativa.

Aos poucos, de posse de dados estatísticos de fácil acesso, o público começou a questionar sobre a real capacidade dos ditos gurus de entregar resultados realmente condizentes com o que uma vez fora prometido.

A facilidade e o dinamismo provocado por corretoras como a Interactive Brokers, criada em 1993, fizeram com que muitos optassem por seguir um caminho alternativo. Muitos embarcaram em uma aventura, largaram seus empregos e foram viver de “daytrade”, explorando a euforia associada as ações listadas na Nasdaq durante os anos 90. Outros, menos audaciosos (mais sábios) e com os pés no chão, aos poucos foram migrando para fundos passivos como o primeiro ETF, também lançado em 1993, pela State Street Global Investor, o S&P 500 Trust ETF, conhecido como “spider”.

Sendo assim, eu diria que a chegada dos ETFs e das corretoras digitalizadas representaram uma espécie de segunda ferida narcísica para o gestor ativo.

Já a terceira ferida narcísica julgo ser uma que resultou, não de um golpe fatal, mas de um longo processo iniciado nos anos 70 e intensificado ao longo dos anos 90, que vem minando até hoje a indústria de gestão ativa, de forma análoga ao descrito pela expressão “death by a thousand cuts” (morte por mil cortes).

Refiro-me aqui a diversas iniciativas educacionais cujo objetivo é empoderar o investidor, tornando-o capaz de entender melhor a complexidade dos mercados e suas diversas estratégias de sobrevivência.

Empresas como o The Agora Group, fundada nos anos 70, e a Motley Fool, fundada em 1993, vem desempenhando um papel fundamental neste sentido.

Afinal, em um mundo onde as taxas de juros são bem menores do que aquelas vistas nos anos 80, diversos investidores se perguntam se vale a pena pagar 2% de taxa de administração para gestores que, na média, não conseguem superar aquele ETF apelidado como Spider.

Além disso, mais recentemente, com a disseminação de diversas estratégias de investimentos através de diversos canais digitais, aqueles que ainda acreditam na gestão ativa, se sentem bastante frustrados. Muitos afirmam que além de resultados medíocres, os gestores ativos pecam em transparência na disseminação da estratégia implementada.

Por tudo isso, o desenvolvimento de instituições voltadas a potencializar o investidor representa o terceiro golpe em minha analogia.

Para mim não há dúvida. A única forma pela qual a gestão ativa sobreviverá será através de uma conversão. Uma na qual seus gestores descem do pedestal e passam a potencializar seus cotistas, ensinando-os, preparando-os para que estes possam eventualmente andar por conta própria.

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