Lula ou Flávio? ‘Na segunda, não importa quem ganhe, a bolsa cai’, diz CEO da EQI
Na próxima segunda-feira (27), o mercado terá, enfim, a resposta de quem sentará na cadeira de presidente pelos próximos quatro anos: se Flávio Bolsonaro, candidato do PL (Partido Liberal), que ficou à frente no primeiro turno e favorito a levar a disputa, ou o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT (Partido dos Trabalhadores).
Para qualquer resultado, no entanto, Juliano Custódio, CEO da EQI, uma das principais casas de análise do mercado, tem uma certeza: a bolsa irá cair. O exercício de futurologia, como o próprio executivo brinca, em entrevista ao Money Times, parte de uma premissa simples: a bolsa subiu demais.
Se Lula for eleito, o mercado deverá ter um ‘balde de água fria’ (alguns analistas chegam a falar de circut break). Isso porque parte do mercado ‘reprecificou’ as ações para juros menores. Com Lula no poder, um ajuste fiscal e, consequentemente, a Selic mais baixa ficam mais distantes. Uma equação simples.
Mas se Flávio ganhar, diz Custódio, os investidores vão perceber que, a partir de segunda-feira, será preciso lidar com todos os problemas e promessas feitas durante a campanha. O que inclui um doloroso ajuste fiscal na ordem dos bilhões de reais, algo que vai demandar tempo e organização política.
“Vai haver um custo para fazer os ajustes necessários”, diz.
O ajuste precisa vir
Custódio também rebate um pouco a acusação de que o mercado tem ‘um lado’. A questão, segundo ele, é que investidores preferem juros mais baixos, independentemente de quem os entregue.
“O que fazemos é analisar as políticas propostas e tentar entender qual candidato tem mais condições de proporcionar esse cenário. Assim, a aposta acaba recaindo sobre um candidato”. No fim do dia, diz, não é sobre a pessoa. É sobre quem pode trazer juros mais baixos para que as empresas sofram menos. “Essa é a leitura”.
Enquanto Flávio defende um ajuste fiscal, embora não tenha deixado claro como irá fazer isso, Lula é a favor do crescimento econômico como forma de ‘domar’ a trajetória da dívida fiscal. Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral (DBGG) atingiu 82,9% do PIB (equivalente a R$ 11,1 trilhões).
Os números não deixam mentir: caso o ajuste seja lento ou perca a credibilidade, projeções apontam que a dívida bruta possa avançar rumo a 107,2% do PIB até 2036 (ou ultrapassar 100% do PIB entre 2032 e 2035, segundo estimativas legislativas).
É hora da bolsa?
Mas com ou sem ajuste, porém, é inegável que o Ibovespa está barato, destaca Custódio. O indicador preço sobre lucro (P/L), que mede o quanto o preço de ativo está atrativo, está em 12,28 vezes, segundo dados da Oceans 14, número menor do que o período pré-Covid, por exemplo, quando o PL estava em 21 vezes.
“As empresas estão muito descontadas. Elas estão descontadas porque o serviço da dívida hoje pesa muito nos resultados. Uma simples queda na taxa de juros já faria os lucros crescerem consideravelmente”.
Com um ajuste fiscal, diz, “naturalmente, o dinheiro tende a migrar para a bolsa”.
Mas não será um ‘passeio no parque’, diz. Segundo ele, o investidor que não está acostumado com renda variável precisa ir devagar. “Não é porque muda o governo que o Brasil melhora de um dia para o outro. O ano de 2027 ainda será difícil”.
Para ‘ancorar’ o seu argumento, lembra do Congresso renovado. Dos 513 deputados federais eleitos, 173 vão exercer seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados, uma taxa de renovação de 33,72%. No Senado, como ocorre de oito em oito anos, dois terços das cadeiras serão renovadas.
Queda dos juros versus rentismo
Para este ano, conta Juliano, a EQI fez várias apostas.
“Compramos bastante produto prefixado, bastante IPCA+ e outros ativos atrelados à queda dos juros, esperando uma vitória da direita e uma redução das taxas de juros.”
“O juro futuro já caiu quase dois pontos percentuais desde o primeiro turno. Não acredito que caia muito mais daqui para frente sem reformas.”
Na visão dele, os juros mais curtos podem começar a convergir para os mais longos, talvez para algo próximo de 12%.
“Então, todos esses investimentos que fizemos em ativos prefixados devem gerar retornos bastante interessantes para nós.”
Juliano cita ainda um estudo do BTG segundo o qual a Selic poderia cair para 6,3% ao ano no início de 2028 caso o país consiga combinar crescimento econômico com um ajuste consistente das contas públicas.
“E, se esse cenário continuar se confirmando, como o próprio BTG sinalizou, ainda existe um espaço relevante para queda dos juros.”
Nesse contexto, surfar essa onda por meio de fundos imobiliários, títulos públicos prefixados, crédito privado prefixado e ações não parece uma má ideia.
Mas e se Lula vencer?
O cenário seria continuar fazendo o que foi feito nos últimos quatro anos: aproveitar os juros elevados para capturar renda financeira.
Ele recorda que, com os juros mais altos, em vez de investir em empresas, seja por meio da bolsa ou diretamente na economia real, os investidores acabam emprestando dinheiro ao governo.
“Então, de um lado, temos uma estratégia mais voltada para a economia real, caso o Flávio vença. Se o Lula vencer, o cenário tende a favorecer mais o rentismo”, completa.