Ibovespa derrete mais de 4% e dólar volta a operar acima de R$ 5,30 – o que o petróleo tem a ver com isso?
Depois de “segurar as pontas” na véspera, o Ibovespa (IBOV) já perdeu 8,4 mil pontos nas primeiras horas do pregão desta terça-feira (3) com a escalada das tensões no Oriente Médio e as possíveis consequências na política monetária.
Por volta de 12h (horário de Brasília), o IBOV registrava queda de 4,64%, aos 180.518,33 pontos, na mínima intradia. Já o dólar à vista subia 2,98%, a R$ 5,3200.
O conflito no Irã, iniciado com ataques coordenados entre Estados Unidos e Israel no último sábado (28), aumentou a aversão a risco dos investidores globais em temor de reflexos da forte valorização do petróleo nos preços de energia – e, consequentemente, na inflação, em um cenário de juros elevados nas principais economias do mundo.
Além do fechamento do Estreito de Ormuz – controlado pelo Irã e uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo –, o Catar suspendeu ontem a produção de gás natural liquefeito, resultando no fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.
Ontem, o presidente norte-americano Donald Trump chegou a afirmar que os ataques ao país persa devem durar entre quatro e cinco semanas, mas com “capacidade para prolongar por muito mais tempo”, em coletiva de imprensa. Já hoje, Trump disse que Teerã quer dialogar, mas é “tarde demais”.
Em reação, os preços do petróleo seguem em forte valorização. Entre os pregões de ontem e hoje, a commodity acumula alta de 14%.
Mais inflação, menos cortes na Selic
Segundo analistas, o principal cenário de risco é o impacto da alta do petróleo na inflação – que está em processo de desaceleração com a Selic no maior nível desde meados de 2006, a 15% ao ano.
Ontem (2), o secretário do secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse que o conflito no Irã pode eventualmente antecipar a parada do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central caso se intensifique um cenário de incerteza e de repasse para preços.
O estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, também avalia que “caso a alta no petróleo altere o ciclo de desinflação atual, isso poderia mudar a trajetória dos juros no Brasil”.
Na última decisão de política monetária, o Banco Central sinalizou um corte na Selic e o mercado passou a apostar em uma redução de 0,50 ponto percentual, o que levaria a taxa de juros de 15% ao ano para 14,50% neste mês. A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está prevista para os dias 17 e 18.
Contudo, a escalada de tensão no Oriente Médio mudou o cenário, na visão do mercado. Hoje, a curva de juros futuros já precifica um corte menor na Selic: a aposta de uma redução de 0,25 ponto percentual em merço se tornou majoritária, com a probabilida de 52%. Já a chance de corte de 0,50 ponto percentual, a sinalizada pelo BC, é de 48%.
Na véspera, a curva a termo precifica 72% de chance de corte de 0,50 ponto percentual na taxa de juros e 28% de redução menor, de 0,25 ponto percentual. Já na semana passada, as apostas de redução da Selic para 14,50% atingiram quase 100%.
O mercado, por sua vez, ainda prevê corte de 300 pontos-base, ou três pontos percentuais, na taxa Selic neste ano, com a taxa básica de juros a 12% ao ano no final de 2026.
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Apenas petroleiras em alta
Entre as 85 ações que compõem a carteira teórica, apenas o setor ligado ao petróleo em tom positivo. Nesta terça-feira (3), o Brent opera com alta de mais de 6%, com o barril negociando acima de US$ 80.
Por volta de 11h40 (horário de Brasília), Brava Energia (BRAV3) liderava os ganhos do Ibovespa com alta de 0,42%, a R$ 19,25. Petrobras ON (PETR3) subia 0,38%, a R$ 44,88 e Prio (PRIO3) tinha ganho de 0,18%, a R$ 44,79.
Em entrevista à Reuters, a CEO da Petrobras afirmou que a estatal não costuma repassar volatilidades repentinas ao mercado interno. “A Petrobras historicamente não repassa volatilidades repentinas”, disse Chambriard, ressaltando que a empresa vem acompanhando os desdobramentos do conflito.
Também quatro pessoas com conhecimento das avaliações sobre a situação disseram à agência de notícias que a companhia monitora de perto os desdobramentos do conflito e prevê uma semana de observação no mercado de petróleo, antes de uma eventual decisão sobre preços de combustíveis.
Já a Prio repercute a obtenção de licença de operação (LO) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renovavéis (Ibama) para operar o Campo de Wahoo.