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Cotações por TradingView
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Gestores de fundos querem o dinheiro dos millennials

17/11/2019 - 17:00
Gestores de ativos precisam inovar em estratégias para atrair a nova geração de investidores (Imagem: Pixabay)

Por Andrew Gillick da Brave New Coin

A indústria americana de gestão de ativos de US$ 22 trilhões está começando a diversificar o risco de mercado de ações com criptoativos, além de competir com plataformas de finanças digitais mais eficazes para os fundos de pensão dos seus clientes “millennials”.

Já que os bancos demoraram para inovar os mercados de empréstimo pessoal e de remessas, acabaram abrindo espaço para startups digitais entrarem, como a Transferwise e a Square no mercado de remessas e a Venmo e a Monzo no banking pessoal.

Os fornecedores de fundos de pensão terão que correr para captar a atenção e o dinheiro da geração millennial de “unicórnios” como a Circle Invest e a Square, que oferecem um novo estilo de gestão quase ativa de dinheiro.

“O futuro da indústria de serviços financeiros está cada vez mais leve, exigindo poucos ativos físicos para estabelecer ou sustentar uma presença. Isso torna a indústria vulnerável à ruptura dos competidores digitais”, afirmou Pete Redshaw, da Gartner VP, empresa de pesquisa em tecnologia.

Esse novo estilo de investimento é a premissa dos criptoativos: dar às pessoas mais controle sobre suas finanças (“ser seu próprio banco”) e serem mais ativas na gestão, não deixando nas mãos de terceiros para que invistam todo mês.

Essa abordagem passiva funcionou por quase 20 anos, mas criou seus próprios riscos: uma indústria de gestão de criptoativos que cresceu com importância sistêmica dependente de uma única posição comprada superexposta e superalavancada no mercado acionário.

Assim como os bancos, a indústria de fundos está prestes a passar por grandes mudanças por conta da próxima geração de consumidores, que se acostumaram com a liberdade financeira de transferência de dinheiro instantânea e de graça entre diferentes moedas, stablecoins e tokens apoiados por ativos em uma carteira de criptomoedas, que torna desnecessária grande parte do serviço fornecido pelos gestores de ativos.

Gestão ativa de finanças é uma nova tendência que dá mais liberdade aos consumidores de gerirem os seus gastos sem precisar de um intermediário tradicional (Imagem: Pixabay)

Inovação em cripto irá testar uma forma ativa de gestão financeira

Já existem plataformas de poupança em cripto que fornecem um investimento médio em dólares no estilo “401(k)” para as maiores criptomoedas.

Vimba é uma “onramp” (plataforma de negociação direta) de cripto para fiduciárias não privativa que automatiza compras em prestações semanais, quinzenais ou mensais e as envia para a carteira dos clientes em um estilo de investimento quase ativo.

O papel “ativo” do usuário é de escolher se o ativo permanecerá em uma carteira quente para ser usado em uma plataforma de negociação para outros criptoativos ou se será exportado para uma carteira fria para armazenamento seguro.

Circle, o primeiro “unicórnio” de cripto, também fornece um serviço parecido em sua plataforma Circle Invest, onde usuários podem agendar pagamentos periódicos.

Essas plataformas inovadoras estão entre os fornecedores de fundo e uma plataforma de negociação, fazendo uso de infraestrutura de blockchain e negociação de mercado de balcão (OTC, na sigla em inglês) para que as taxas tenham uma fração ainda menor do que ETFs (fundos negociados em bolsa) de baixo custo.

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O Segredo das Criptomoedas

Apesar de o mercado ainda estar numa etapa inicial, o design de interface (UI) e a experiência do usuário (UX) nessas plataformas são mais fáceis e rápidos do que no labirinto de fundos e produtos derivativos de sites de fundos incumbentes.

Combinada com a personalização que bancos digitais fornecem aos clientes com dados sobre gastos e orçamento, a capacidade de sincronizar ferramentas de portfólio com carteiras de criptoativos e serviços como Vimba e Circle via API (interface de programação de aplicações) dará à geração cética, que foge dos bancos tradicionais, a possibilidade de fazer a gestão de suas próprias finanças.

Estratégia passiva é desatualizada para a necessidade dos novos investidores (Imagem: Pixabay)

“Muito grande para falir”: a estratégia passiva dos US$ 22 trilhões

Já que sempre haverá um mercado para o estilo de investimento completamente passivo que floresceu desde a invenção de produtos negociados em bolsa (ETPs, na sigla em inglês), essa estratégia de superlotação poderia perder sua popularidade caso virasse uma ameaça sistêmica assim como as obrigações de dívida colateralizada (CDOs, na sigla em inglês) na crise financeira global de 2007 e 2008.

As oito maiores empresas de gestão de ativos nos Estados Unidos acumularam US$ 22 trilhões em ativos sob gestão, mais do que os US$ 8 trilhões de 2006, de acordo com a pesquisa da Fasanara Capital, gestora de ativos.

Isso pode ter acontecido por conta do ciclo de feedback positivo dos preços crescentes liderados pelos gestores e fundos seguidores de tendências, resultando em um nível de risco correlativo e concentrado em mercados de ações globais e, principalmente, na indústria de gestão de ativos.

Existe um desequilíbrio de liquidez entre os investimentos de fundo e os termos e condições de resgate para unidades de fundos abertos, afirma FSB (Imagem: Pixabay)

Em 2014, o Comitê de Estabilidade Financeira (FSB), órgão internacional que monitora o sistema financeiro global, aconselhou que gestores de fundos e de ativos fossem denominados como “instituições financeiras globais sistematicamente importantes” por conta do tamanho do setor.

Tal categorização exigiria mais supervisão regulatória, mas, após a indústria ter feito forte lobby, a denominação não foi aplicada.

A FSB também advertiu sobre um “desequilíbrio de liquidez entre os investimentos de fundo e os termos e condições de resgate para unidades de fundos abertos”.

Os ETFs criaram a ilusão de liquidez para ativos enquanto o número de fundos cresceu além do número de ações ocultas a eles subjacentes e da habilidade de vendê-los (ou resgatá-los) durante uma venda em massa.

Para ilustrar o desequilíbrio, até o fim de 2015, havia 9,5 mil fundos mútuos e 1,6 mil ETFs disponíveis, mas apenas 3,7 mil ações disponíveis nas bolsas norte-americanas.

Entradas de capital precisam ser equilibradas com as estratégias para evitar volatilidade (Imagem: Pixabay)

A indústria de fundos: uma ameaça sistêmica passivo-agressiva

Hoje, cerca de 90% das entradas de capital são passivas (ETFs, fundos de índice passivo, fundos de paridade de risco) ou quase passivos (algoritmos seguidores de tendências, estratégias de impulso, investimento de fatores, aprendizado de máquina); e 90% das estratégias são vinculadas à tendência ou volatilidade.

Essas negociações de ações de longo prazo e de curta volatilidade podem ser descritas como uma posição unilateral de US$ 22 trilhões.

Já houve sinais de alerta de quão rápida e brusca a situação contrária poderia acontecer quando uma estratégia de negociação passiva e de superlotação atingisse um ponto crítico.

Isso aconteceu na negociação de volatilidade de futuros da S&P (índice VIX, para calcular a volatilidade), a negociação reversa de ações de longo prazo que, por dois anos, era a tendência principal, desde negociantes de algoritmos quantitativos até negociantes discretos por meio de curtas ETNs (notas negociadas em bolsa) no VIX.

Em um movimento repentino em janeiro do ano passado, o VIX aumentou em três vezes, o que foi, aparentemente, “imprevisto” e o risco de ter sido subestimado por muitos no mercado.

Em janeiro de 2018, um aumento repentino no VIX fez bilhões de dólares sumirem de posições vendidas e até colapsou um ETF do VIX.

A viralização da negociação de volatilidade curta artificialmente suprimiu para 10 a volatilidade oculta durante anos e o risco do VIX, revertendo, de repente, à média para a média a longo prazo de aproximadamente 10, sendo muito subapreciada subvalorizada.

Morgan Stanley avisou sobre a possibilidade de uma explosão nas posições vendidas relacionadas ao VIX antes do acontecimento, calculando a “sensibilidade para cada mudança de ponto de porcentagem no volume, para o universo total do VIX relacionado aos ETFs ajustado por seus baixos juros.

Essa vega (medida da sensibilidade do preço de uma opção a mudanças na volatilidade do ativo subjacente) está a picos históricos atualmente”.

E isso é o que ficou claro: quando o VIX aumentou o nível recorde de volumes de vendidos relacionados ao VIX que teve que cobrir ficou insuperável, resultou em um ciclo de feedback em que, quanto mais alto estivesse o VIX, mais vendidos teria que cobrir.

O que foi tão impressionante quanto foi que enquanto o VIX aumentou em três vezes em um só movimento, o S&P pareceu estável, caindo em apenas 1% dos níveis em relação às altas, como se ninguém tivesse se dado o trabalho de vender os valores mobiliários adjacentes que configuraram a volatilidade.

Isso dá a aparência de um mercado em que apenas os valores mobiliários negociados são derivativos, com pouca consideração às ações, que é a preocupação da Fasanara Capital e outros expressada na negociação de ETFs — superalavancados e passivamente comprados no mercado de ações.

Os criptoativos estão sujeitos aos mesmos problemas de investimento apresentados pelas fiduciárias tradicionais? (Imagem: Pixabay)

Como a baixa volatilidade contradiz o risco: os criptoativos oferecem menos risco do que as ações?

O risco notado no bitcoin e nos demais criptoativos é sempre atribuído a sua alta volatilidade e, na narrativa tradicional, a sempre baixa volatilidade das ações é citada como um ponto a seu favor.

Isso pode ser, de certa forma, explicado pelo risco do mundo financeiro baseado nas métricas de VAR (valor em risco) retrospectivo, que iguala alta volatilidade com alto risco.

No entanto, isso deixa claro que o oposto é verdade. Hyman Minsky, um macroeconomista que dedicou sua pesquisa às crises financeiras, sintetizou, em sua Hipótese de Instabilidade Financeira, que “estabilidade pode ser desestabilizada”: agentes econômicos que observam um baixo risco são atraídos a aumentar a tomada de risco que, por sua vez, pode levar a uma crise financeira.

De forma similar, em um estudo sobre Volatilidade e Crises Financeiras, Jon Danielsson, da London School of Economics, reafirmou a teoria de “estabilidade é desestabilizada” de Minsky: descobriu que longos períodos de baixa volatilidade têm um forte poder previsível sobre o incidente de uma crise bancária, devido a empréstimo e alavancagem excessivos.

No entanto, mais relevante a cripto, ele observou que a alta volatilidade têm pouco poder previsível de uma crise.

O estudo de Danielsson e outros descobriu que o impacto de inversão de baixa volatilidade na economia é a mais alta se a economia permanecer em um ambiente de baixa volatilidade por cinco anos; cada queda de 1% abaixo da tendência se traduz para um aumento de 1,101% na probabilidade de uma crise.

Hoje, a cerca de 14, o VIX se manteve abaixo de sua média a longo prazo de 18,4 desde 2012.

Como dito anteriormente, a volatilidade tem sido artificialmente suprimida no mercado de ações, o que significa que os players do mercado estiveram mais expostos ao risco do que imaginam. É provável que estejamos vendo um falso alerta para criptoativos?

Fidelity Investment é a primeira empresa tradicional a se “render” ao universo dos criptoativos como classe de investimento (Imagem: Wall Street Journal)

Fidelity, a pioneira dos incumbentes

Fidelity, a maior fornecedora de fundos de pensão dos Estados Unidos, é a primeira do universo dos fundos tradicionais a acolher a classe dos criptoativos.

Desde 2014, pesquisou blockchain e até fez a mineração de bitcoins para explorar a tecnologia. Planeja lançar a Fidelity Digital Assets Service em 2020, se posicionando para integrar o blockchain em seus serviços como uma classe de investimento.

Com a ajuda de uma grande e inquieta geração de investidores desde a década de 1980, a indústria de gestão de fundos cresceu em importância sistêmica: Blackrock, Vanguard, State Street e Fidelity, juntas, têm mais de US$ 15 trilhões de ativos sob gestão, provocados por fundos de investimento passivos como ETFs.

Vanguard, enquanto apoia tecnologia de blockchain, tem sido arrogante em relação a bitcoin e investimento em criptomoedas como um ativo.

Joe Davis, economista-chefe da Vanguard, disse que “o caso de investimento em criptoativos é fraco”, e que existe “uma probabilidade decente de que o preço [do bitcoin] chegue a zero”.

Contrário à diretora executiva da Fidelity, Abigail Johnson, mais famosa por ser a favor de tornar “criptoativos mais acessíveis para investidores”, o CEO da Vanguard, Tim Buckley, afirmou que “você nunca vai ver um fundo de bitcoin da Vanguard”.

Fidelity também está coletando dados de criptoativos, investindo na CoinMetrics, empresa de pesquisa de mercado.

Vanguard é uma das empresas tradicionais que se recusa a acolher os criptoativos (Imagem: Investor Junkie)

Se os executivos da Vanguard consideram a classe de ativos digna de investimento ou não, eles terão que oferecer criptoativos (ou produtos de criptoativos) para clientes “millennials” para acompanhar os rivais.

Apesar do risco notável e da volatilidade nos mercados de criptoativos, veículos conservadores, como os fundos de pensão e de doação da Universidade de Yale, estão migrando para esse universo.

Morgan Creek, gestora de fundos de hedge, anunciou ter recebido investimentos de dois fundos de pensão norte-americanos em seu fundo de capital de criptoativos de risco.

Cambridge Associates, consultora de pensões e doações, também recomendou a seus clientes: “Apesar dos desafios, acreditamos que vale a pena aos investidores começarem a explorar essa área hoje com um olhar para o longo prazo”.

E se os gestores de fundos forem forçados a comprar criptoativos a baixo preço?

A indústria de gestão de ativos se beneficiou bastante da maior e mais rica geração de investidores da história, os “baby boomers” (nascidos entre as décadas de 1940 e 1960), por conta dos planos de pensão para funcionários.

No entanto, a próxima geração de clientes não têm o privilégio trabalhista garantido, então a indústria de fundos não pode focar só nessa estratégia como sempre fez.

É necessário que as empresas tradicionais se renovem para atrair os novos investidores, além de acolherem os criptoativos como classe de investimento, e não como ameaça (Imagem: Pixabay)

Desde o início dos anos 1980, a trajetória dos S&P 500 teve uma taxa histórica anormal de crescimento quando os “baby boomers” compraram todas as baixas de preço no mercado de ações desde os anos 1980.

Entretanto, com a união de todos os fatores já mencionados, essa taxa parece estar aumentando apesar do “esgotamento” da tendência de 30 anos para a próxima geração de investidores.

O Federal Reserve de St. Louis descreveu a “corrida de touros” de nove anos do mercado de ações “como uma oportunidade perdida” para os millennials, já que 60% deles não têm exposição ao mercado de ações e quase ⅔ dos millennials americanos não têm nada guardado para a aposentadoria.

Se 10% dentre cerca de 65 milhões de millennials nos Estados Unidos, definidos pela Fidelity entre 21 e 37 anos de idade, investissem 10% da sua renda média de US$ 59 mil em criptoativos todo ano, geraria US$ 38,3 bilhões para o mercado, ou quase ¼ da capitalização de mercado atual.

As opções de pensão de criptoativos estão limitadas a um nicho de serviços de custódia de contas individuais de aposentadoria para pessoas mais ricas.

Em breve, veremos o potencial de todos os componentes do ecossistema de cripto se conectando por meio de APIs e carteiras de blockchain para fornecer um modelo híbrido de gestão ativa de dinheiro que possa ser monitorada em tempo real, negociada e utilizada diariamente pelas pessoas em tempo real.

O foco aqui foi apenas na indústria de aposentadoria norte-americana, mas os mesmos temas também são frequentes na Europa. Pontos críticos em mercados nunca são precisamente apercebidos e podem fazer com que uma gotinha de água vire uma tempestade a qualquer momento.

De onde quer que venha — da guerra de negociações, da tensão geopolítica, do aperto quantitativo (“quantitative tightening”) —, se a negociação de mercado de ações a longo prazo se comportar assim como o curto VIX, veremos o fim do investimento passivo.

(Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento)

Última atualização por Gustavo Kahil - 17/11/2019 - 0:59