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Felipe Miranda: Lista negra dos investimentos convencionais

Opinião - 08/10/2019 - 10:23
Felipe Miranda
Colunista discorre sobre novo paradigma de investimentos com queda da Selic (Imagem: Empiricus Research)

“ O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divirjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

João Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”

Imagino ser difícil neste momento convencer alguém a ir ao cinema para ver um filme que não seja “Coringa”. Ok, você venceu. Vá ver “Coringa”. Eu já vi e é realmente incrível. Agora, depois que você assistir a “Coringa”, considere “Longe da Árvore”.

O documentário se baseia no livro homônimo de Andrew Solomon e acompanha algumas famílias com filhos diferentes de seus pais, metaforicamente longe da árvore genealógica.

Solomon, também autor de outro livro formidável chamado “O Demônio do Meio-Dia: Uma Anatomia da Depressão” (eu já encontrei esse terrível demônio duas vezes na minha vida e posso dizer o quanto é ruim), afirma ter escrito “Longe da Árvore” para perdoar os próprios pais.

Ele se vê — ou, ao menos, se via — como um desses “diferentes”, desde que passou a ser rejeitado pela família, quando assumiu sua homossexualidade.

O livro “Longe da Árvore” narra o cotidiano de 300 famílias. Já o filme se concentra em poucos casos. Uma família com filho autista, outra com uma criança portadora de síndrome de Down, uma terceira com nanismo, uma quarta cujo filho é um jovem assassino de uma criança de 8 anos.

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É uma jornada e tanto no convívio com a diferença, com a capacidade de enxergar o outro e com a empatia pelos problemas alheios, que muitas vezes sequer conseguimos enxergar, enterrados em nosso próprio narcisismo e na nossa maneira de ser e estar no mundo. Adentramos o caminho do respeito, do afeto e da valorização do diferente.

Confesso nunca ter entendido muito bem como as pessoas gostam de impor o jeito ou as atitudes delas sobre os outros. Se eu faço algo de uma forma, você tem que fazer rigorosamente da mesma forma. A pessoa não só está convencida de que ela tem a maneira certa de fazer, como, ainda mais prepotente, está convicta de que só a maneira dela é a certa, não havendo qualquer outra.

O mercado financeiro é dominado por certas seitas. A turma da escola fundamentalista, de fato, obedece a um fundamentalismo, quase de cunho religioso, tão forte quanto o islâmico. Se você fala em trading, logo acusam você. Todos mantêm o preconceito do “voodoo science” sobre a Análise Técnica, por exemplo, ignorando a pesquisa rigorosamente científica de Andrew Lo sobre o tema, em que se identifica capacidade preditiva nos gráficos.

E o que dizer do mitológico Jim Simons, basicamente um trader quant, capaz de entregar por vários anos os maiores retornos de Wall Street? Sem falar na última capa da ortodoxa The Economist, entregando o futuro do mercado de ações aos robôs e aos algoritmos.

Eu, Felipe, confesso nunca ter me dado muito bem com trading. Fui ainda pior com minhas incipientes iniciativas em análise gráfica. Agora, seria pretensioso demais afirmar que, porque eu não consigo, é impossível também aos outros. Será que não seria mais fácil apenas admitir minha própria incompetência pessoal, sem que ela seja transmitida para outros? Narciso acha feio o que não é espelho.

Confesso também não estar na lista dos “diferentes” de Andrew Solomon. Na verdade, eu sou muito parecido com o que meu pai era. E suspeito que, por isso mesmo, brigávamos tanto. Ou talvez a culpa fosse apenas minha mesmo, fruto da arrogância típica das crianças que sabem tudo, sobre tudo.

Realmente, não sei qual das duas hipóteses é a mais fidedigna, mas desconfio que a dificuldade de ele reconhecer para mim qualquer tipo de aprovação viesse justamente do fato de sermos tão parecidos. Acho que ele também não aprovava a si mesmo. “Ainda somos os mesmos, e vivemos…”

De uma forma ou de outra, acabei me guiando pelos passos do meu pai. Nunca achei que me tornei economista ou financista. Acho que sempre fui. Nem tive muito escolha.

Convivendo com aquilo desde criança, me tornei um “animal of the markets” na transição da infância para a pré-adolescência e fui sendo orientado tacitamente pelos caminhos já traçados pelo meu pai, que fora diretor de banco de investimento e dono de corretora, para depois quebrar três vezes, uma pior do que a outra.

Tenho certeza de que foi muito mais fácil assim, me baseando na trajetória paterna. Fico imaginando a alternativa. Como seria se eu fosse um “diferente”, se tivesse caído longe da árvore?

Encontrar seu próprio caminho, ter necessariamente de desbravar as coisas por sua conta, decidir sem qualquer orientação de terceiros, enfrentar situações inteiramente novas, navegar por mares nunca dantes navegados. Enfim, ter de percorrer a estrada do desconhecido.

Pois então, meu caro, seja muito bem-vindo. É exatamente essa a nossa situação hoje. Estamos todos, rigorosamente todos nós, longe da árvore como investidores.

As condições que nossos pais enfrentaram para poupar e investir seus recursos não existem mais e nós teremos de encontrar um caminho inteiramente novo. As condições que nós mesmos enfrentávamos há alguns anos não existem mais. E eu sei que o novo e o desconhecido podem gerar medo e desconforto. Mas é a vida, tal como ela se coloca. Não há alternativa. A realidade mudou. E nós precisamos mudar também.

Você não vai mais poder contar com uma gorda aposentadoria vindo do governo. Já era. Fim da linha. Ou você passa a ter um bom plano de previdência privada ou corre sérios riscos de ter uma velhice menos tranquila.

Você não vai mais poder contar com o paraíso do CDI, com investimentos sendo remunerados a taxas exorbitantes com 100 por cento de liquidez e sem risco.

Estamos necessariamente longe da árvore, entende? É um contexto absolutamente novo. E o novo pode ser perigoso, sim. Mas, de novo citando Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”, mesmo. Aliás, é perigosíssimo, mas aqui estamos e precisamos enfrentar as coisas, pegar esse touro pelo chifre.

Ou ficaremos deitados na cama sob os cobertores, sendo alimentados por sopa com medo de sair do quarto? Já na voz de Ney Matogrosso, “o caminho é escuro e frio, mas também bonito, porque é iluminado pela beleza do que aconteceu minutos atrás”.

Resumo da história: se você quer ganhar dinheiro de verdade no mercado, vai precisar encontrar seu próprio caminho, vai ter de correr certos riscos (com responsabilidade, sempre), vai ter de tolerar a volatilidade (estômago de avestruz!) e vai ter de dilatar seu horizonte temporal.

No pain, no gain. Não é assim em qualquer outra atividade da vida? Você já viu seus músculos se desenvolverem sem submetê-los a minilesões? Você já emagreceu sem fazer dieta ou exercício físico? Você já aprendeu algum tema sem estudar aquilo com profundidade? Por que seria diferente com investimentos?

Numa daquelas provocações paradoxais que a vida parece nos fazer, se quisermos ter rigorosamente o mesmo rendimento dos investimentos de nossos pais, teremos de agir bem diferente.

Se você ainda não tem uma boa carteira de ações, por você mesmo, por meio de bons fundos de ações ou por meio de ETFs, não estendeu o duration (prazo médio) de suas aplicações em renda fixa e não contratou um bom plano de previdência privada, desculpe, mas está apegado demais à árvore. E o pior: essa árvore, tal como conhecemos, também não existe mais — os rendimentos dos nossos pais também são outros.

Quando as coisas mudam, eu mudo. E você? Olha, sabe, eu torço mesmo é para que o João Pedro mude bastante a trajetória genotípica, cresça bem longe da árvore, seja muito melhor do que o pai. Eu tenho certeza de que ele já é — afinal, não é muito difícil.

Última atualização por Valter Outeiro da Silveira - 08/10/2019 - 10:23