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Felipe Miranda: A queda do nosso muro – ecos de 1989

Opinião - 10/10/2019 - 10:17
Colunista discorre sobre nova economia brasileira liberal e transformação estrutural macroeconômica (Imagem: Empiricus Research)

Apesar de alguma recuperação ontem, o mês de outubro tem sido difícil para os mercados. Amigo meu diz que é por causa do jejum judaico. Depois disso, tudo passa, ele diz. Sei lá. Até agora, em termos práticos, o saldo mensal é negativo em 3% para o Ibovespa. Para mim, já passou da hora de expiarmos essas quedas.

Fora das crenças e superstições individuais — deixo claro: eu as respeito integralmente —, a guerra comercial entre EUA e China aparece como o principal fator para a performance ruim dos mercados. Um menor fluxo de comércio poderia impactar a atividade econômica e deteriorar as expectativas, jogando a já relativamente combalida economia mundial na recessão em 2020.

Eu não sei qual vai ser o resultado das negociações comerciais entre EUA e China. Acho que ninguém sabe. A essa altura, temos muita incerteza, notícias desencontradas e ameaças de ambos os lados, o que torna difícil distinguir ruído de sinal.

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Hoje mesmo, a imprensa noticiou que a comitiva chinesa, logo depois de aterrissar nos EUA, já estaria disposta a voltar para casa. Um fracasso nas negociações seria inexorável, causando queda de 1% para os futuros de Wall Street.

Na sequência, outra notícia sugeria um pacto cambial entre as nações, com a China se mostrando mais sensível à demanda norte-americana por não desvalorizar de forma sucessiva sua moeda. O pânico foi contido e agora Wall Street ronda o zero a zero, com ligeira predominância da queda.

Já não sou tão criança a ponto de esperar um acordo comercial completo e definitivo entre EUA e China. Vamos acabar com as expectativas ingênuas e as disputas maniqueístas entre o bem e o mal, o certo e o errado, o sim e o não.

Estamos diante de uma disputa bem mais ampla do que por meras tarifas e por compra de soja. Está em jogo a hegemonia tecnológica e política das próximas décadas.

Sem tanto otimismo para a resolução imediata da guerra comercial, teria eu me tornado pessimista sobre a evolução dos mercados, em particular os brasileiros?

Não.

Apesar de não achar que todos nossos problemas serão resolvidos com a visita chinesa aos EUA — na verdade, acho que só haverá um dia em que teremos resolvidos todos os nossos problemas: quando deixarmos a vida —, ainda espero que seja evitado um grande desastre, com alguma notícia positiva na margem, sem escalada das tensões ou, ao menos, com algum compromisso, mesmo que parcial, no sentido de conter retaliações recíprocas adicionais.

Isso, somado à capacidade de reação dos formuladores de política econômica, tanto de cunho monetário quanto fiscal, com o “whatever it takes” de Mario Draghi chegando aos cofres dos Tesouros, tende a evitar uma grande catástrofe lá fora.

Então, com o incêndio na sala do gringo sendo apagado, ele poderá voltar a considerar os mercados emergentes como um todo. “Vamos atrás de mais retorno e mais crescimento, porque aqui em casa está difícil.”

E aí chegamos especificamente ao caso brasileiro. Na minha visão, esse será um dos principais atratores do capital internacional se, de fato, for evitada uma recessão lá fora.

Em linhas gerais, porque o país deve ser uma das maiores melhorias institucionais no biênio 2019/2020, com consequência brutal sobre percepção do nível de risco, e também uma das maiores acelerações do crescimento.

“Ah, mas o crescimento ainda não veio.” Exatamente. E esse é o ponto nevrálgico. O Brasil vem da maior recessão da sua história, com falência do Estado e histerese em parte de seu potencial de produção. Para arrumar isso, demora mesmo.

Vivemos uma complexa tripla transição no Brasil, caracterizada por três pilares:

i) de uma economia liderada, dirigida e comandada pelo Estado por outra em que o setor privado comanda o crescimento;

ii) de uma economia fechada e voltada para dentro para outra mais aberta, com acordos comerciais (alguns já assinados) e integração tecnológica e nas grandes cadeias de produção global; e

iii) de uma valorização histórica dos ativos financeiros para valorização dos ativos reais, com juros caminhando para mínimas históricas e por lá ficando por muito tempo — depois do IPCA de ontem, minha provocação em Palavra do Estrategista recente no sentido de que o Brasil pode ter juros reais zerados já não é mais um completo devaneio (todo grande acerto fora do consenso parece um enorme devaneio a priori).

Posto de maneira mais direta e enfática, a transição em questão é de um país socialista para outro capitalista. Como defendeu por muito tempo o brilhante Gustavo Franco, o Brasil precisava de um choque de capitalismo — e parece que ele está acontecendo agora.

Sob um discurso pretensamente neokeynesiano, a nova matriz econômica, mais marcada a partir de 2011, mas já com medidas incipientes desde 2006, quando da saída do ministro Palocci, vínhamos ferindo de morte o incipiente capitalismo brasileiro.

Entre as várias definições possíveis do capitalismo, está aquela de um sistema com quatro grandes características: 1) direito à propriedade privada; 2) respeito aos contratos; 3) obediência às sinalizações do sistema de preços (livre interação entre oferta e demanda para definição de preços); e 4) um governo capaz de criar instituições que fomentem os três itens anteriores.

Só para ficar nos casos mais óbvios, como falar em direito à propriedade privada diante da proposta de aumento de capital na Petrobras em que todos os acionistas aportavam dinheiro e o governo entrava com o Oceano Atlântico?

Que respeito aos contratos se pode ter diante da MP 579, que basicamente destruiu o setor elétrico? E o que dizer do controle dos preços de energia, combustíveis e tarifas em geral, sob uma falsa retórica de proteção ao consumidor? E que competição pode haver diante da eleição ad hoc dos nossos campeões nacionais?

O Brasil sempre foi o país dos conchavos, dos amigos do rei, dos oligopólios e monopólios, das críticas à “competição selvagem dos porcos capitalistas”, da incapacidade de se lidar com o sucesso alheio, da visão negativa sobre o lucro.

Tudo isso está acabando. E é claro que isso não acontece do dia pra noite. Mas, pela primeira vez em nossa história, temos um governo de orientação efetiva e inteiramente liberal na gestão da política econômica — para ser justo, talvez encontremos um paralelo no PAEG, sob o comando da dupla Campos/Bulhões, mas isso era 1967; lá se vai um bocado de tempo, hein?

Nada de nomeações políticas, amigos do rei, social-democracia. Vamos finalmente acreditar no mercado. Só há uma metáfora para mim capaz de descrever a dimensão do que está sendo feito no Brasil: o nosso muro de Berlim está caindo.

Uma transformação como essa não acontece do dia pra noite — o próprio muro de Berlim começou a ser derrubado em 9 de novembro de 1989 e a Alemanha só foi ser formalmente reunificada em 3 de outubro de 1990. Ao mesmo tempo, essa recuperação não é linear e gradual.

As coisas acontecem em saltos súbitos, muito maiores do que nossas cabecinhas lineares conseguem conceber a priori. Se erramos subsequentemente as projeções para nosso PIB, superestimando o crescimento, não pode acontecer o contrário também?

Depois, fica óbvio, claro. Como é fácil a posição do crítico, meu Deus. Profissão: palpiteiro. Povo prascóvio.

O que lhe parece a Alemanha de hoje?

Compre enquanto é tempo… e espere. Deixe a volatilidade de outubro de lado. Provavelmente, ela vai continuar, mas no gráfico de longo prazo não terá sido nem uma perninha perceptível para baixo. Definitivamente, as cotações vermelhas não combinam com a bandeira brasileira.

Última atualização por Valter Outeiro da Silveira - 10/10/2019 - 10:17