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Felipe Miranda: A nova roupa do rei – o novo capítulo da trilogia

Empiricus - 08/02/2019 - 10:39

Por Felipe Miranda, CEO da Empiricus Research

Seduzido pelas supostas habilidades do novo alfaiate da cidade, o rei encomendou uma nova roupa para si. Ele não conhecia muito bem o forasteiro, mas ficou impressionado com a possibilidade de vestir “a melhor de todas as roupas”. Segundo o tecelão, essa vestimenta típica de suas terras distantes tinha qualidade incomparável a qualquer outra. Ela, contudo, tinha uma característica muito própria: somente os inteligentes poderiam vê-la.

O rei, bastante vaidoso, é claro, contratou o alfaiate à espera da tal super-roupa. Meses e meses se passaram sem que a entrega fosse cumprida. O contratado, evidentemente, ia sendo remunerado pelos serviços prestados mesmo sem ainda ter entregue o produto.

Então, o monarca impaciente foi até a oficina do tecelão, sendo recebido com muita alegria: “Vossa Majestade, sua roupa acaba de ficar pronta e repousa aqui sobre a mesa”.

O rei devolveu: “Que lindas vestes! Fizeste um trabalho magnífico.” As pessoas em volta aplaudiram fervorosamente. E o alfaiate mostrou-se todo orgulhoso.

Na verdade, ninguém ali viu roupa alguma. Na pequena oficina, estavam apenas o alfaiate, a mesa e mais nada. No entanto, quem assumiria a suposta incapacidade de enxergar a roupa que só os inteligentes podiam ver?

A farsa foi alimentada por todos os nobres da cidade, que elogiavam a indumentária do monarca com falsos suspiros de admiração.

Com ego inflamado e disposto a mostrar a nova roupa para todos, o rei marcou um grande evento na nação. Toda população registrou presença. A festa estava bombando, quando uma criança, inocente e sincera, afirmou em voz alta: “O rei está nu” – denunciando publicamente a farsa. O rei tentou esquivar-se, mas já era tarde. O constrangimento foi total.

Obviamente, não sou o autor dessa história. Até gostaria, mas no mercado financeiro não cabem contos de fadas. O original é de Hans Christian Andersen, um clássico sobre vaidade cortesã e soberba.

Tornar-se risco e poderoso traz armadilhas às vezes impiedosas. Sem perceber, você pode se afastar da realidade, da inteligência da rua, do chão da fábrica, do contato com as questões mundanas, que são as que verdadeiramente importam. Ninguém quer falar ao rei sobre seus defeitos. As pessoas têm medo de ofendê-lo, receiam ser punidos, ao mesmo tempo em que querem aproximar-se do poder e gozar de uma eventual vantagem.

Ninguém mais fala verdades ao monarca. Ele, estimulado pela puxação de saco e pelos elogios muitas vezes mentirosos ou exagerados, vai se envaidecendo cada vez mais, acelerando a caminhada em direção ao precipício. Cavaleiro de Tânatos. Tudo que faz é supostamente bom. Não há mais limites, não há antítese às suas próprias teses, não há apontamento de caminhos alternativos. É o novo herói, o Midas.

Numa situação assim, o rei, em vez de chatear-se por críticas e comentários negativos (muito mais construtivos do que a babação de ovo tipicamente conferida aos bilionários), deveria valorizá-los.

Começando a trazer um pouco a coisa para os devidos fins desta newsletter, lembro que, se você tem como dever de ofício e vocação emitir opiniões, não pode deixar de fazê-lo quando está diante de pessoas ou instituições poderosas.

Aliás, ao contrário. É aí que você precisa ser mais contundente, porque outros não vão se dispor a fazê-lo, preferindo estar sempre prontos para elogiar a nova roupa do rei. “O saco é o corrimão do sucesso”, diria Ramiro em um de seus momentos incorporado de Fat Tony, a personagem talebiana representativa da inteligência de rua. Olha que barato: no filme “Green Book”, Viggo Mortensen interpreta Tony Lip, um motorista que parece a descrição exata de Fat Tony, de Taleb.

O rei deveria agradecer àqueles que o avisam antes do baile de gala sobre seus trajes inadequados. Curiosamente, Chris Andersen era dinamarquês. E há algo podre no reino da Dinamarca.

Nesta sexta-feira, antes de partir para o fim de semana, convido humildemente os quatro leitores deste texto a analisar as notas de corretagem geradas pelas suas corretoras. Mais especificamente, que persigam o tópico: “Taxa consolidada (outros custos operacionais)”. Vejam se ali está escrito algo como: diante da profunda alteração que sofreram as taxas, além da instituição de outras tarifas, a corretora, buscando simplificar o procedimento, não cobrará taxa de manutenção e custódia, consolidando tais custos em um único, que corresponderá a 3,9 por cento sobre o valor da taxa de corretagem.

Entendeu o que está rolando? A nota de rodapé é ali no final, pequeninha, e o investidor não se dá conta. É uma taxa de corretagem ou uma taxa de custódia disfarçada. O discurso é de que não há taxa de custódia e que a corretagem é X. Mas, na prática, existe uma cobrança adicional de 3,9 por cento sobre o valor da corretagem sob o disfarce de “Outros Bovespa”. Que “Outros” são esses se não mais corretagem ou custódia? Fico realmente na dúvida.

Desculpe se tenho dificuldades com interpretações de texto ou de notas de corretagem. Mas sou incapaz de, sozinho, solucionar outro questionamento. Lendo aqui um desses papéis neste momento, vejo que, ao menos nesse caso específico, se divulga um tal preço da corretagem, mas na nota se cobra ISS adicional ao valor. Em outras palavras, neste caso, o preço da corretagem efetivamente pago pelo investidor é diferente do valor anunciado da corretagem, pois soma o ISS adicional. Se ainda não está claro, resumo: na prática, você pode estar pagando mais corretagem do que a corretora fala para você.

Encerro a tríade de dúvidas com observações sobre o fundo “Pedras Secas Fundo de Investimento Multimercado Investimento no Exterior”. Aos mais interessados, procurem pelo CNPJ 22.975.153/0001-97. Vou usar dados do “Comparação de Fundos” da Vérios, em vez do “Buscador de Fundos da Empiricus”, para tratar a questão com a devida independência. O fundo foi criado em 16 de fevereiro de 2016 e acumula desde então uma rentabilidade absoluta de 509 por cento, com um índice de Sharpe de 2,05. É uma linha reta ascendente, praticamente. Tem um cotista. Segundo regulamento, tem como público-alvo um grupo determinado de investidores profissionais, que pertençam a um mesmo grupo societário. Será que poderíamos saber qual é esse grupo societário? E qual a estratégia do fundo?

Isso é o que a criança gostaria de falar para o rei.

Agora, mudando a coisa… e quanto à inversão da seta na dinâmica de comunicação da mesma metáfora? Como deve o rei falar com seus súditos? Ou: como o governante precisaria comunicar-se com os eleitores? Como o líder fala com seus seguidores? E aqui me refiro a líder nas mais variadas instâncias. Não precisa ser na conotação clássica de guru, mestre, sábio. Nada disso. Apenas alguém percebido como portador de uma pequena habilidade particular, capaz de ser transmitida para outrem.

Aí já é assunto para um próximo texto.

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