Etanol de milho acende alerta em ano já desafiador para usinas; há espaço para mais açúcar?
Em um ano em que o etanol surge como possível fonte de fôlego para as usinas, diante de preços e margens comprimidas do açúcar, a rápida expansão do biocombustível de milho desponta como mais um fator de preocupação para o setor sucroenergético.
O avanço desse biocombustível intensifica a concorrência no mercado. Uma maior oferta de etanol — somada a uma produção elevada de etanol de cana-de-açúcar e à perspectiva de um mix mais alcooleiro na safra 2026/27 — tende a pressionar as cotações e reduzir margens, em um ambiente já bastante desafiador para as usinas.
Para o início da próxima safra, que começa em abril, a expectativa ainda é de preços mais firmes para o biocombustível, o que pode trazer algum alívio no curto prazo. No entanto, o cenário estrutural inspira cautela.
Na avaliação do professor do Insper, Marcos Jank, uma expansão excessiva do etanol de milho pode criar distorções no mercado, afetando diretamente a competitividade do etanol de cana e forçando o setor a direcionar mais cana para a produção de açúcar.
“A dúvida que fica é: há espaço para mais açúcar? O Brasil já responde por cerca de metade do mercado mundial, e o consumo interno não vai absorver volumes adicionais — o brasileiro já consome muito açúcar. Trata-se de um produto essencialmente voltado à exportação”, afirma Jank.
Segundo o professor, o aumento da produção de milho pode provocar um reordenamento relevante no setor de etanol e também na dinâmica das exportações brasileiras de açúcar.
Jank também chama atenção para a sustentabilidade da rentabilidade das plantas de etanol de milho no médio e longo prazo, à medida que novas unidades entram em operação.
“Há dúvidas sobre a continuidade dessa rentabilidade. Uma eventual queda no preço da gasolina pode ‘destruir’ a comercialização do etanol. São muitas variáveis interligadas, e tudo isso passa, cada vez mais, por gestão de risco e governança das empresas”, pondera.
Para a StoneX, a produção de etanol de milho deve fechar perto de 9,6 milhões de m³. Em 2026, a expectiva é para um volume em torno de 11,5-12 milhões de m³, aumento de 20% a 25%. Atualmente, o mercado crescente do etanol de milho representa 25% da produção anual do biocombustível brasileiro.
Nos próximos 10 anos, algumas estimativas mais otimistas apontam que esse número pode ser de 50%. Segundo a StoneX, esse número deve ser de 40% em 2035.