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Entrevista: “Candidatura de centro é marketing do status quo”, diz João Amoêdo

Conrado Mazzoni - 15/01/2018 - 19:00
Para João Amoêdo, mercado ajuda governo a caminhar na direção correta (Foto: Divulgação)

O Partido Novo propõe uma renovação política em 2018. Na figura do empresário João Amoêdo, candidato à Presidência da República, batalha nas redes sociais e em eventos para transmitir sua mensagem a um número cada vez maior de brasileiros: “O Brasil não precisa ter um estado grande por ser pobre. Somos pobres porque temos um estado muito grande”. A meta é chegar a 5% nas pesquisas para garantir um convite aos debates entre candidatos na TV.

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Não é fácil, mas nada impossível, sobretudo em uma corrida eleitoral que se desenha imprevisível e aberta. “O que tem me chamado a atenção é que me parece que a candidatura de centro está sendo usada muito como marketing do status quo”, diz Amoêdo em conversa com o Money Times, por telefone. “Acho difícil imaginar que quem está no poder, ou vem do poder, se aproveitando desse mesmo modelo, queira fazer uma mudança maior.”

Na visão deste engenheiro que fez carreira no mercado financeiro, depois da estabilização econômica, o Brasil precisa de uma transformação no quesito liberdade econômica. Ou seja, facilitar a vida de quem quer empreender. “Isso depende de uma redução do estado e passa, certamente, por corte de mordomias da área publica”, afirma Amoêdo, um dos fundadores do Novo.

Além da eleição presidencial, o partido deve ter cerca de 350 candidatos a deputado federal em 18 Estados mais o Distrito Federal. A meta é eleger 35. Oficialmente, também definiu candidatos ao governo de Distrito Federal (Alexandre Guerra), Rio Grande do Sul (Mateus Bandeira) e Minas Gerais (Romeu Zema). Na mesma linha, em São Paulo, está na fase final de acerto com Rogério Chequer, líder do Vem Pra Rua, e, no Rio de Janeiro, conversa com Bernardo Rezende, o Bernardinho, ex-técnico da seleção brasileira de vôlei. “Minha aposta maior é que ele sairá candidato”, avalia Amoêdo.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como recebeu a decisão da S&P de rebaixar o rating do Brasil culpando o atraso nas reformas?

Não era muito surpresa. A Previdência tem um impacto grande nas contas públicas. É o principal item que impede o governo de fechar as contas. Olhando pelo lado positivo, que isso sirva como um alerta para aos nossos políticos, especialmente os congressistas, de que a reforma da Previdência é vital para uma boa qualificação de risco do Brasil e, consequentemente, para avançarmos com a economia.

Vemos alguma melhora, mas o receio é que isso seja de curto prazo e única e exclusivamente porque viemos de um cenário muito ruim. É exatamente o mesmo caso da queda de juros, que ocorre porque a inflação está muito baixa, resultado da recessão que tivemos nos últimos dois anos. Sabemos que, se a economia começar a retomar, com a baixa produtividade atual, o risco é precisar puxar novamente a taxa de juros, dado que não temos equilíbrio fiscal. Então eu acho que deveria ser encarado como um alerta aos políticos de que o Brasil ainda está muito vulnerável.

A atual equipe econômica do governo, com Henrique Meirelles na Fazenda e Ilan Goldfajn no BC, seria mantida em caso de vitória de João Amoêdo na eleição?

Vejo com bons olhos o trabalho deles. Os avanços do governo Temer foram basicamente na área econômica. Na Fazenda em relação ao teto de gastos e, no Banco Central, com a redução da inflação. É cedo para dizer ainda se seria exatamente a mesma equipe, mas acho que há bons nomes para se aproveitar sim.

Na Fazenda certamente eu seria mais ousado em um programa mais firme de privatizações. É óbvio que em um outro contexto, de governo eleito em uma eleição na qual ficassem mais claras as propostas, o que não foi o caso desse governo que está aí. Eu talvez demandasse uma equipe com um pouco mais de agressividade para implementar uma reforma mais drástica para mudar esse modelo de Estado.

Qual é o seu plano de campanha com o Partido Novo para este ano?

Nosso primeiro objetivo é chegar em torno de 5%, 6% nas pesquisas porque isso permitiria que pudéssemos participar dos debates. A legislação eleitoral hoje vigente exige que você tenha pelo menos cinco deputados federais para participar dos debates. Como não temos nenhum deputado federal, eu não estaria, a princípio, indo aos debates. Entretanto, as emissoras têm adotado a regra de convidar quem conta com 5% nas pesquisas. O nível de cobertura aos candidatos também depende do indicador das pesquisas. Se participarmos dos debates, creio que teremos capacidade de um crescimento maior porque poderemos expor ideias e falar do que pode ser feito.

O Novo, claramente, é uma renovação quando você olha as outras opções. São opções que já estão na política há muitos anos, com ideias muito semelhantes. Acho difícil imaginar que quem está no poder, ou vem do poder, se aproveitando desse modelo, queira fazer uma mudança maior. Para levar o Brasil a um novo patamar – a exemplo do que fizemos no plano de estabilização econômica – e ser um país que, de fato, gere riquezas, precisamos de uma maior liberdade econômica para facilitar o empreendedorismo. Isso depende de uma redução do estado e passa, certamente, por corte de mordomias da área publica.

Especificamente para a campanha, em um primeiro momento, estaremos divulgando as ideias do Novo em eventos do partido. Só para dar um número, no ano passado fizemos 900 eventos pelo Brasil em 200 cidades. E usamos muito as mídias sociais. O Novo hoje ainda é o maior partido no Facebook. Esse tem sido o caminho que tenho usado, principalmente para divulgar conceitos e ideias. É uma aposta que estamos fazendo. Muita gente ainda não conhece o Novo.

Qual a bandeira que gostaria de fincar na campanha?

Particularmente, tenho pensado em quatro eixos: (I) segurança pessoal, patrimonial e de contratos (jurídica), que vejo como fundamental ao país; (II) responsabilidade fiscal, equilíbrio das contas para não demandar nem taxa de juros elevada nem mais carga tributária; (III) liberdade econômica para que as pessoas possam empreender e gerar riqueza; e (IV) educação básica, com o aumento da produtividade para termos mais mobilidade social. Provavelmente, vamos priorizar dois ou três justamente para dar um foco. Na parte da gestão, que seria um último ponto, queremos privilegiar o uso de tecnologia e valorização das pessoas no serviço público.

De Luciano Huck a Geraldo Alckmin, como vê os nomes citados para a coalizão de centro atual?

Há dois eventos: o julgamento de Lula no dia 24 e, no início de abril, a etapa de definição das candidaturas. Ficará mais claro, por exemplo, se Luciano Huck vai ou não. O que tem me chamado a atenção é que me parece que a candidatura de centro está sendo usada muito como marketing do status quo. Porque isso nos remete à ideia do equilíbrio, uma candidatura que não é nem o Bolsonaro, da extrema-direita, nem o Lula, da extrema-esquerda, e é uma busca pelo equilíbrio.

Entretanto, ela é feita pelos partidos tradicionais: PMDB, PSDB, DEM. Certamente é difícil imaginar que esses partidos tradicionais queiram mudar muito esse modelo que temos hoje, queiram aprofundar as operações da Lava Jato, queiram eliminar mordomias políticas, eliminar recursos públicos a partidos. Esse candidato de centro é muito mais um candidato do status quo.

Eles estão com muita dificuldade em encontrar um candidato viável. Está se buscando novos nomes e isso está servindo mais para dividir essa chamado candidatura de centro. Tem o Meirelles, tem o Rodrigo Maia, e isso vai dividindo votos do Alckmin. O cenário está ficando mais aberto ainda. Para o Novo, por exemplo, é positivo ter mais gente se dizendo de centro, sendo na verdade todos da situação. Esse dito centro acaba se diluindo por falta de identificação com uma candidatura forte.

Eu tendo a achar ainda que, no final, acabe ficando o Alckmin mesmo, com o risco de ter um dito outsider, como o Huck, tentando essas forças de centro aglutinarem em um candidato com a maior viabilidade. Vale aqui uma menção: difícil imaginar que um outsider que venha pelos partidos tradicionais apresente uma agenda nova. Tende a ser uma agenda do status quo. Nossa ideia é deixar esse alerta para a população. O que queremos de fato?

Há algum plano alternativo caso sua candidatura não chegue ao segundo turno?

Não pensamos em nenhum plano B. Tem muito tempo, praticamente nove meses, está muito aberto, volátil e também não há nenhum nome claro e definido com alinhamento próximo ao nosso. Estamos otimistas para trabalhar com o plano A.

O partido liberaria Gustavo Franco para ministérios de coalizão? Ele participaria do seu governo?

Do ponto de vista do partido não tem nada que restrinja que ele venha a participar. Acho que até pela própria experiência dele recente no PSDB, eu acredito que ele só venha a participar de algo que tenha um alinhamento muito grande. Nossa alegria em tê-lo trazido para cá ocorre não somente pelo nome, por tudo o que representa e seu histórico, mas principalmente pelo alinhamento muito grande das ideias do Novo. Eu penso com muito carinho a ideia de tê-lo no governo.

É um sujeito experiente e conhece a máquina pública. O Brasil mudou de patamar quando fez a estabilização econômica, e ele foi um dos principais responsáveis por isso. A nossa nova mudança de patamar só será feita se mudarmos esse modelo com muito mais liberdade econômica, a exemplo do que deu certo em todos os outros países com renda per capita superior. Há uma relação direta com liberdade econômica. O Gustavo Franco partilha muito dessa ideia. Já que ele foi um protagonista nesse primeiro processo, poderia, sem dúvida, se tornar protagonista neste segundo.

Ao fim de 2015, Delfim Netto disse: “Dilma persistiu no erro do excesso de intervenção na economia e recusou o mercado como um ajudante no processo de desenvolvimento” O que pensa do papel do mercado no debate?

É importante a gente desmistificar. Muita gente põe o mercado como sendo um antagonista, quando na verdade o mercado é formado pelos indivíduos que usam os mercados de moedas e juros para proteger o patrimônio. É natural quando há uma insegurança quanto ao crédito do país que eles busquem outros ativos ou exijam uma taxa de juros mais elevada.

O governo não precisa ficar refém do mercado. O mercado pode ser entendido como um termômetro das suas ações. Quando vemos, por exemplo, agências de rating baixando nosso rating, na verdade, é uma sinalização de que não estamos fazendo nosso deve de casa, tomamos nota baixa na prova. O mesmo ocorre quando os mercados ficam mais nervosos, com volatilidade, elevando perspectiva para taxa de juros ou para o dólar. É uma sinalização de que há uma gestão ruim na economia.

Muito mais do que confrontar, acho que deveríamos seguir como um indicador. De novo, não é um movimento orquestrado por uma pessoa ou uma instituição. São um grupo de indivíduos brasileiros e estrangeiros. Nesse sentido, ele ajuda ou deveria ajudar o governo a caminhar em algumas direções corretas. É claro que o governo também precisa ponderar no que são ações de curto ou longo prazo. Mas acho que é um bom indicador que não deve ser desprezado.

Você defende a privatização de estatais, como Petrobras e Correios, e também dos bancos públicos?

Eu não vejo sentido em ter nenhuma instituição financeira embaixo do governo. Infelizmente, os malefícios de ter uma instituição provedora de crédito pelo governo têm se provado sempre maiores do que os benefícios. Isso acaba dando margem para negociações, concedendo poder para a área publica. Vemos inadimplência nos bancos públicos, especialmente no BNDES, então eu não vejo isso como positivo. O balanço é negativo. Sou a favor da privatização das empresas e acho que, seriamente, precisaria rever a existência do BNDES como um banco de fomento, especialmente no tamanho que ele se tornou.

Nas conversas sobre uma associação entre Embraer e Boeing, o governo se posiciona contrário a abrir mão do controle. Se João Amoêdo fosse presidente, qual seria a posição?

Eu não teria problema nenhum de o controle não ser brasileiro no caso da Embraer. A questão de defesa deve ser vista de outras formas. Não é porque vamos ter o controle de uma empresa como a Embraer que teremos uma defesa mais segura. Outros países não funcionam assim. Assim como lá atrás existia a ideia de que o petróleo era muito estratégico, e o Brasil não poderia abrir mão, vejo o mundo hoje globalizado e não existe isso de ter uma empresa que produz avião para justificar esse argumento. Não veria problema nenhum.

Uma abertura maior da economia brasileira é outro ponto que abordaremos no programa do Novo. É uma economia muito fechada, poucos acordos comerciais, precisamos mudar.

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