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Opinião

Como a Netflix está silenciosamente dominando o Brasil

Guilherme Siebert - 06/05/2017 - 21:12

Netflix

Por Guilherme Siebert, diretor de marketing na Givr

Não é novidade – a Netflix (e outros serviços de streaming) está dominando o mundo. Vários são os motivos para a empresa estar alcançando a marca de 100 milhões de usuários no mundo. Mas o que mais chama a atenção é a sua habilidade de crescer internacionalmente, especificamente no Brasil. De acordo com a Carta do Investidor (4º Tri de 2016), houve um crescimento recorde em 2016. Mais impressionante ainda, 75% dos 19 milhões de novos assinantes de 2016 são internacionais.

“No primeiro ano, lembro que éramos muito fracos no Brasil. Hoje o país é um foguete.”  – CEO da Netflix, Reed Hastings

NetflixPode parecer exagerado, mas Hastings realmente quis dizer isso. O Brasil foi o primeiro mercado internacional da Netflix. Mesmo sendo considerado um “sucesso improvável” – devido aos altos índices de pirataria no país – as assinaturas decolaram. Até o Silvio Santos fez propaganda espontânea pro serviço de streaming e ganhou uma assinatura vitalícia.

A empresa não divulga estatísticas específicas sobre cada país, mas um estudo independente revelou que em 2015 o Brasil estava em 4º, com 2,9 milhões de assinaturas.

Um ano depois (Ago 2016), uma nova pesquisa é divulgada, com dados surpreendentes. De acordo com ela, 71% dos usuários brasileiros de VOD (Video On Demand) usam Netflix – apenas 13% atrás do YouTube. O que é incrível considerando que se trata de um serviço gratuito. Até a Globo e o SBT ficaram pra trás (“pobre” Silvio).

A mesma pesquisa apontou que 57% dos usuários pesquisados no Brasil eram assinantes da Netflix. Um número superior ao dos EUA (46%).

Algo aconteceu em 2016.

Você lembra que no começo do artigo foi falado do recorde de assinaturas e que 75% eram de fora dos EUA? Minha tese é que o Brasil foi o principal responsável. Para comprová-la, acompanhe esta pesquisa no Google Trends sobre os últimos 12 meses. O Brasil é o maior buscador da palavra “Netflix”. Além disso, 6 dos Top 10 são da América Latina. Os EUA aparecem em oitavo.

Netflix

 Os dados ficam ainda mais intensos quando comparados ao longo do tempo. Alinhado com todos os dados apresentados até agora, o Brasil vira o jogo por volta de Abril de 2016 e se torna o maior buscador da palavra Netflix. Repito, não há dados oficiais desde 2015, mas tenho um forte pressentimento de que subimos no ranking (2º lugar, talvez?)

Netflix

Mas não é em vão que a Netflix está ficando tão popular no Brasil. Muitos aspectos do produto combinam exatamente com a cultura do país. Aqui vão 5 razões baseadas em estatísticas.

5 Razões Baseadas em Dados Para a Netflix e o Brazil Se Encaixarem Tão Bem

1. Brasileiros são ULTRA conectados

NetflixA popularização da Internet no Brazil é mais acelerada do que em qualquer outro país. De acordo com uma pesquisa da AT Kearney, os internautas brasileiros têm a maior frequência de conexão entre todos. Ao serem perguntados sobre o tempo online, 51% disse estar conectado durante o dia todo. Esse grupo é 2x maior que os EUA (25%), Reino Unido (24%) e a Alemanha (22).

Quando perguntados sobre os motivos para se conectar, os brasileiros também diferem das estatísticas globais. As duas principais razões são: explorar novos assuntos (BR 98% vs. 95% Global) e entretenimento flexível (BR 96% vs. 83% Global). Os brasileiros são sempre os primeiros a adotarem a cultura online

Com uma população mais jovem e penetração sólida de smartphones, 71% dos entrevistados no Brasil disseram estar continuamente conectados. No Japão e China, menos de 40% responderam o mesmo. (AT Kearney)

Na prática? De acordo com a ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura), o número de assinantes de TV a cabo diminuiu 4,3% entre Abril de 2015 e Abril de 2016. (Já comentamos sobre esse mesmo período antes, certo?)

2. Conteúdos originais estratégicos

A Netflix desvendou a ciência por trás da TV. Aproximadamente 75% das escolhas são influenciadas pelo algoritmo de recomendação que também os ajuda a licenciar conteúdos estratégicos. Não é de se impressionar que 5 das 10 séries mais pesquisadas em 2016 são Originais da Netflix.

Fica ainda mais interessante no Ranking Brasileiro das Séries Mais Pesquisadas: 8 dos Top 10 são licenciados da Netflix e apenas 2 são TV-only.

Conteúdos internacionais são bem aceitos entre vários grupos sociais brasileiros. Mas a Netflix vai além e estreia sua primeira série original brasileira: 3%. A série apocalíptica esteve entre os mais assistidos no Brasil e na América Latina, de acordo com a Carta do Investidor.

3. Assistir offline

Em Novembro de 2016, a empresa implementou uma funcionalidade que permite fazer o download das séries e filmes para assistir offline. Estratégica ou não, essa ferramenta combina perfeitamente com o Brasil por dois motivos.

Netflixa) A estrutura de banda larga do país. Um estudo recente conduzido pela própria Netflix revelou que o Brasil está entre os 10 países com a pior conexão à internet, com uma velocidade média de 2,57 mbits/seg. Vários países da America Latina se saíram melhor. A possibilidade de fazer download do conteúdo também permite que o usuário o assista a qualquer momento.

b) Popularidade dos Smartphones. 72% dos brasileiros possuem um. E ao comparar os países que mais assistem vídeo por smartphone, o Brasil se compara aos EUA: 29% dos usuários.

4. Netflix nos salva da pirataria e dos downloads ilegais

Um estudo do Governo descobriu que 41% dos internautas brasileiros já fizeram algum tipo de download ilegal (incluindo o ex-secretário da Cultura, Gilberto Gil). O que ninguém tem se perguntado é a razão da pirataria e dos downloads ilegais. Na verdade, esse estudo pergunta:

  1. “Preços mais em conta” é a principal razão (96%). A Netflix dá conta disso cobrando apenas uma mensalidade (será profundado no próximo ponto).
  2. “Mais fácil de se encontrar” é a segunda razão (14%), o que fazia sentido em tempos de TV linear e do Blockbuster. Hoje, basta utilizar o search da Netflix (isso se o algoritmo de recomendação já não tiver acertado antes).
  3. “Está disponível antes do original” é a terceira razão (9%). E aqui está o ponto mais bacana da Netflix: Lançamentos Internacionais – a maioria dos conteúdos originais são lançados em todos os países ao mesmo tempo. Vale lembrar que essa pesquisa se refere à pirataria de produtos físicos. Acredito que a % deste motivo seja muito superior tratando-se de arquivos de vídeo.

Percebe como a Netflix dá conta dos 3 grandes motivos da pirataria? O que eu mais admiro é a filosofia da empresa no combate à pirataria.

“A melhor arma contra a pirataria não é legislativa ou criminal. É dar boas opções”  – Ted Sarandos

5. O preço

As cidades brasileiras têm o segundo ingresso de cinema mais caro do mundo (perdemos apenas para a África do Sul). Em 2016, (ano de crise econômica), o preço médio de um ingresso era R$28. Isso é 41% mais do que uma conta básica de Netflix (R$19,90). E não é preciso comparar, certo?

O impacto causado sobre os cinemas foi tão forte, que até eles estão oferecendo planos de assinatura mensal.

A TV por assinatura também não é barata. Em 2016, a média de uma assinatura básica era R$36. 80% a mais que uma conta básica da Netflix.

O que falta para a Netflix?

A Netflix está se posicionando muito bem entre grupos como: Elite Brasileira, Juventude Trabalhadora Urbana, Adultos Urbanos Estabelecidos e os Donos de Negócio. São grupos que possuem algumas similaridades com o consumo global: estudam/falam inglês, acompanham tendências de Hollywood, possuem os smartphones mais recentes (e até assistem ao Super Bowl). Eles correspondem à 26,7% da população.

Ainda assim o Brasil é uma criança no mundo online. 51% da população ainda não acessa a Internet com frequência. O Brasil não é um mercado único. É uma composição de 11 grupos com hábitos de consumo distintos. Para conquistar o Brasil, é necessário focar também nos Jovens da Periferia, um dos grupos com o maior número de usuários. O segredo para dominar esse mercado altamente lucrativo está em entregar um catálogo de conteúdo diverso e de nicho. Nacional e internacional. Original e licenciado.

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