Com dividendos altos, Allos (ALOS3) mira renda recorrente e acirra concorrência com FIIs; qual é a melhor opção?
A promessa de distribuição de até R$ 1,8 bilhão em dividendos pela Allos (ALOS3) neste ano reacendeu uma discussão no mercado: como as ações de empresas de shopping centers podem competir com os FIIs do mesmo segmento quando o assunto é geração de renda.
A tese foi reforçada pela CFO da companhia, Daniella Guanabara, que defende que o investidor pode encontrar na administradora uma combinação entre previsibilidade de proventos e potencial de valorização – algo que os fundos imobiliários não necessariamente oferecem.
“Quem carrega a ação [ALOS3] tem a certeza do dividendo que já anunciamos para 2026 e tem também a possibilidade de ganho de capital”, afirmou a executiva, em entrevista concedida ao Money Times.
A empresa pagará, de forma mensal, entre R$ 0,28 e R$ 0,30 por papel até dezembro, com a meta de manter uma remuneração elevada e recorrente nos próximos anos.
“Pretendemos continuar com dividendos relevantes. É claro que é um guidance anual, porque no Brasil nunca se sabe como será a volatilidade. Mas é uma intenção da companhia seguir sendo uma pagadora relevante”, contou a CFO.
Ações ou FIIs?
De acordo com Guanabara, além do portfólio de ativos dominantes, a Allos conta, como diferencial, com elevada liquidez no mercado secundário, com volume médio diário negociado (ADTV) acima de R$ 150 milhões — o que facilita a entrada e saída tanto de investidores pessoas físicas quanto de institucionais.
A título de comparação, o fundo imobiliário Maxi Renda (MXRF11), que é o maior da bolsa de valores em número de cotistas, com mais de 1,3 milhão, possui liquidez diária próxima de R$ 18 milhões.
“Eu acho que existem duas diferenças entre nós e o FIIs. O nosso portfólio é altamente dominante e também temos uma liquidez que é bem acima da média dos fundos”, disse a executiva.
“Quem carrega o papel da Allos tem um risco reduzido pelo dividendo que a gente já anunciou para este ano. E, como o setor de shoppings tem se mostrado resiliente, temos publicado resultados bons, e a ação tem respondido a isso”, prosseguiu.
De fato, desde o início de janeiro, a ALOS3 acumula alta de cerca de 11% na B3. No recorte de 12 meses, o avanço se aproxima de 65%, saindo de R$ 19,26, em fevereiro de 2025, para os atuais R$ 31,64. Acompanhe em tempo real.
Parcerias com FIIs fazem parte da estratégia
Apesar da comparação, Guanabara explicou que a relação com os fundos imobiliários não é de embate. Segundo a executiva, a companhia mantém parcerias frequentes com os veículos dentro da estratégia de reciclagem de portfólio.
“Já vendemos muitos ativos para os FIIs, principalmente shoppings menores que não fazem mais sentido para a escala da Allos”, disse. “Nós fizemos desinvestimentos desses empreendimentos, mas eles continuam dando bons resultados para os fundos.”
Entre os movimentos mais relevantes, a empresa alienou, em 2023, participações no Shopping Estação Curitiba e no Plaza Sul Shopping ao XP Malls (XPML11), em uma transação de quase R$ 200 milhões.
No mesmo ano, vendeu frações no Shopping Jardim Sul e no Bauru Shopping por cerca de R$ 444 milhões. O comprador foi o Hedge Brasil Shoppings (HGBS11).
Já em 2024, o FII Genial Malls (MALL11) assinou um compromisso para adquirir 45% do Rio Anil Shopping, em uma operação avaliada em R$ 172 milhões.
A disputa pelo espaço nas carteiras dos investidores
Mas até que ponto a liquidez das ações é uma vantagem frente aos FIIs? Segundo Felipe Sousa, analista de fundos alternativos do Andbank, o avanço na previsibilidade dos dividendos corporativos tem, sim, aproximado os dois universos.
“Embora sejam classes distintas e as ações sejam mais voláteis, acho que se tornaram pares mais comparáveis com os FIIs, assim como os ETFs que também pagam rendimentos”, afirmou, destacando que isso não significa, necessariamente, que os produtos sejam equivalentes.
“As ações vêm, naturalmente, acompanhadas de maior volatilidade, o que pode assustar alguns investidores no início e exige um período de aprendizado. Para aqueles que não se sentem confortáveis, o mais adequado seria se manter exposto aos fundos imobiliários”, ponderou.
Tributação ainda pesa
Sousa concorda com a visão da CFO da Allos e diz que, para quem aloca menor volume financeiro, as empresas de shopping centers apresentam a vantagem de um possível ganho de capital, que, até então, é isento de imposto de renda (IR) desde que as vendas no mês não ultrapassem R$ 20 mil.
Já os FIIs, embora sejam sempre tributados quando há lucro com a valorização das cotas, ainda contam com uma vantagem estrutural relevante: a isenção sobre os dividendos distribuídos.
“O benefício [da isenção] é importante e ajuda a classe de ativos como um todo, mas nenhum investimento deve se pautar apenas nas vantagens tributárias. Eles precisam ser eficientes do ponto de vista operacional, estrutura e governança”, afirmou o analista.
Justamente do ponto de vista operacional, Sousa destacou que os riscos entre os dois mundos são semelhantes: vacância, desempenho dos lojistas e reciclagem de portfólio impactam tanto empresas quanto fundos imobiliários. A principal distinção está no modelo.
“Uma diferença que temos é que a companhia de shopping administra o imóvel diretamente, enquanto os FIIs são proprietários que não administram”, disse.
E quando cada um faz mais sentido? “Neste momento, as carteiras mais voltadas para ganho de capital deveriam ter maior exposição às ações, mas o investidor deve estar ciente de que terá maior volatilidade.”