BTG aponta redução do ‘porto seguro’ para o etanol e define novo preço de equilíbrio — veja impacto nas ações
A Petrobras (PETR4) reduziu o preço da gasolina A vendida às distribuidoras a partir desta terça-feira (27), e o BTG Pactual analisou os efeitos da decisão para o mercado de etanol e para as ações do setor de açúcar e etanol.
Segundo o banco, como os preços domésticos da gasolina vinham sendo negociados com prêmio em relação à paridade de importação (IPP) por quase 70 dias, o movimento da estatal não chega a ser uma surpresa. Ainda assim, o corte de R$ 0,14 por litro é visto como claramente negativo para o biocombustível.
Os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla estimam que a redução leve a uma queda de cerca de R$ 0,07 por litro no preço de equilíbrio do etanol nas usinas, fazendo com que a paridade de 70% na bomba recuasse de R$ 2,86 para R$ 2,79 por litro.
“Esse movimento ocorre em um momento em que o etanol havia se tornado um verdadeiro ‘porto seguro’ para o setor. Com os preços do açúcar em níveis deprimidos — entre 14 e 16 centavos de dólar por libra nos últimos meses — as usinas vinham direcionando cada vez mais o mix produtivo para o etanol, sustentadas por margens relativas mais atrativas”, afirmam os analistas.
De acordo com agentes do setor ouvidos pelo banco, apenas 30% a 35% da produção esperada de açúcar para a próxima safra está protegida por hedge, já que os preços atuais continuam favorecendo um mix mais alcooleiro.
Embora o BTG estime que os preços do etanol encontrem algum suporte até o fim da safra, diante dos estoques atualmente baixos, o banco alerta que a dinâmica à frente é mais desafiadora, especialmente com o avanço do etanol de milho e a maior concentração do mix produtivo no biocombustível.
O impacto para as ações, segundo o BTG Pactual
Apesar do impacto negativo no curto prazo, o BTG Pactual segue construtivo com o setor, sustentado por uma visão positiva para o açúcar no longo prazo, e mantém recomendação de compra para todas as empresas sob sua cobertura.
Ainda assim, os analistas destacam que o ambiente de curto prazo permanece desafiador e deve continuar pressionando as ações de açúcar e etanol.
Para mensurar esse impacto, o banco realizou um exercício considerando os volumes esperados de vendas de etanol na próxima safra e a participação de cana própria na produção. Esse ajuste é relevante porque a estrutura de pagamento aos fornecedores mitiga parcialmente o efeito da queda dos preços do etanol sobre a cana de terceiros.
“No modelo Consecana, os fornecedores são remunerados com base nos preços de mercado do etanol e do açúcar. Assim, quando o preço do etanol cai, o pagamento pela cana de terceiros também diminui. Com base nisso, estimamos um impacto negativo no EBIT entre 6% e 10% para as empresas sob nossa cobertura”, explica o BTG.
O banco cita a São Martinho (SMTO3) como exemplo. A companhia reportou um custo caixa médio de produção de etanol de R$ 2,70 por litro no ano fiscal de 2025, que subiu para R$ 2,80 por litro no primeiro semestre da safra atual — patamar bastante próximo da nova paridade implícita após o corte da gasolina.
“Com as usinas direcionando o mix para o etanol e com a maior oferta de etanol de milho, o equilíbrio do mercado pode mudar. O corte no preço da gasolina apenas adiciona mais pressão”, afirmam os analistas.
Veja as recomendações do BTG para o setor de açúcar e etanol
- São Martinho: compra, preço-alvo de R$ 39 (potencial de alta de 147,15%)
- Jalles (JALL3): compra, preço-alvo de R$ 6 (potencial de alta de 82,37%)
- Raízen (RAIZ4): compra, preço-alvo de R$ 3 (potencial de alta de 257,15%)