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Análise: As finanças da Netflix são um “House of Cards”?

Investing.com Brasil - 17/07/2019 - 13:16
Netflix
A Netflix é uma empresa bastante endividada, altamente alavancada e que gasta recursos a um ritmo sem precedentes  (Imagem: Facebook oficial)

Por Clement Thibault/Investing.com

À medida que se aproxima a data de divulgação dos seus resultados, a Netflix (NFLX) ainda mantém a confiança dos investidores, com suas ações a menos de 10% da máxima de 52 semanas. Mas essa valorização pode ser precária.

A Netflix é uma empresa bastante endividada, altamente alavancada e que gasta recursos a um ritmo sem precedentes. Essa situação, em conjunto com o aumento da concorrência esperado no próximo ano, pode fazer todo esse house of cardsdesmoronar.

Todo crescimento tem suas peculiaridades

A Netflix sem dúvida é uma história de sucesso em termos de crescimento. A empresa consegue aumentar continuamente sua base de assinantes e sua receita a cada ano.

No trimestre passado, a Netflix gerou uma receita global de US$ 4,52 bilhões, o que representa um crescimento de 22% sobre os números do 1T do ano passado. O número de assinantes da empresa também está em alta. A Netflix aumentou em 25,2% sua base mundial de assinantes, para 148,8 milhões.

A receita nos EUA, que foi de US$ 2,07 bilhões no trimestre passado, cresceu a um ritmo de 14%, enquanto a receita internacional, de cerca de US$ 2,36 bilhões, cresceu 32,8%. Isso pode não parecer importante até você ver as diferenças nas margens de lucro: 34,4% para os EUA, mas apenas 11,6% para o segmento internacional.

Nem todo crescimento é igual ao outro, e a Netflix está crescendo mais onde os usuários trazem menos dinheiro.

A Netflix já possui ampla penetração no mercado norte-americano, mas vemos um crescimento agressivo ainda precificado no momento, sem necessariamente levar em consideração que o crescimento da Netflix será menos lucrativo do que atualmente.

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Dívidas e despesas ainda pesam bastante

O modelo de negócios da Netflix sempre envolveu um enorme endividamento, e isso não mudou no ano passado. As obrigações contratuais totais da Netflix (obrigações de conteúdo, dívida e outras) aumentaram de US$ 28,4 bilhões no 1T do ano passado para US$ 36,1 bilhões no 1T2019, um impressionante crescimento de US$ 7,7 bilhões, ou 27%. Com um lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA) de US$ 1,7 bilhão, a Netflix tem 21x mais obrigações futuras do que seu EBITDA atual.

Isso não é um problema atualmente, pois a expectativa é que a Netflix eleve seu EBITDA quando precisar quitar essas obrigações, mas elas se tornarão um perigo, e a ação ganhará volatilidade caso algum contratempo aconteça ao longo do caminho.

A Netflix deve gastar US$ 15 bilhões em conteúdo neste ano, e a tendência de gastos continua em alta. O fluxo de caixa da Netflix segue no vermelho, incluindo um saldo negativo de US$ 380 milhões no último trimestre. Considerando a expectativa de despesas nos próximos anos, é pouco provável que a Netflix conseguirá apresentar um fluxo de caixa positivo até pelo menos 2022.

A única forma de a Netflix mudar essa realidade é frear os gastos e aumentar ainda mais o valor das assinaturas. Mas será que ela pode se dar ao luxo de fazer isso? Estamos aguardando os comentários da gerência em relação aos seus planos de controlar a alavancagem da empresa.

Combatendo Os Vingadores (e outros)

A concorrência está pressionando a Netflix em dois fronts: pelo lado do conteúdo e pelo lado do custo.

A Netflix, como principal serviço da sua categoria, tem posição dominante no mercado de streaming. A empresa está destinando bilhões de dólares para manter essa posição, mas ainda há dúvidas quanto à sua capacidade de fazê-lo.

A concorrência está acelerando seus gastos com conteúdo. Atualmente parte do portfólio da AT&T (T), a HBO busca ganhar popularidade, afastando-se do nicho de alta qualidade para competir com a Netflix. Já garantiu “Friends”, uma das séries mais populares na Netflix, para seu serviço principal HBO Max, que terá início em 2020.

A Walt Disney (DIS) deve lançar seu serviço de streaming, o Disney+, em novembro, que custará US$ 7 (em comparação com os US$ 13 da Netflix), e oferecerá acesso a conteúdo próprio, como Marvel e Guerra nas Estrelas. Evidentemente, vale a pena mencionar a Amazon (AMZN), embora seja uma concorrente mais antiga, sem falar na Apple (AAPL), que revelou que em breve lançará seu próprio serviço de streaming, o Apple TV+.

Os custos de criação de conteúdo são tão grandes que provavelmente apenas algumas empresas realmente conseguirão ter fluxo de caixa positivo nos próximos anos. Alguns desses serviços inevitavelmente vão fracassar, e a alavancagem da Netflix significa que, se isso acontecer, será um fracasso e tanto.

Outro aspecto a ser mencionado é que a Netflix é uma empresa única, enquanto a Disney, a Amazon.com (AMZN) e a Apple possuem diferentes fontes de recursos que podem torná-las mais baratas que a Netflix por meio do subsídio de assinaturas para atrair consumidores. A Netflix está limitada a seus credores, e eles já assumiram uma quantidade enorme de endividamento.

Conclusão

Não considero que a Netflix seja um investimento seguro. Há muitas questões fundamentais para as quais ainda não temos uma resposta. Vejo a Netflix como uma empresa frágil do ponto de vista financeiro, em razão da sua alavancagem.

Infelizmente, também parece haver algumas nuvens negras no horizonte, como um crescimento internacional menos lucrativo e maior concorrência.

No atual ambiente de crescimento e taxa de juros, não é recomendado vender a descoberto ações de uma empresa sem um catalisador negativo imediato.Mas, num horizonte mais longo, espero que o preço dos papéis da Netflix reflitam melhor os riscos envolvidos.

– Resultados do 2T19 serão divulgados na quarta-feira, 17 de julho, após o fechamento do mercado;

– Expectativa de receita: US$ 4,93 bilhões;

– Expectativa de lucro por ação: $ 0,56

Última atualização por Rafael Borges - 17/07/2019 - 13:19