A ‘fórmula’ para as usinas navegarem 2026 – e o que fazer para não ‘levar um caldo’
O mar não será de águas calmas para as usinas brasileiras em 2026.
Começando pelo açúcar, o mercado vive um cenário bastante desafiador, pressionado por preços baixos, estoques elevados, consumo fraco e forte oferta brasileira — tudo isso apesar de um déficit global estimado em pouco mais de 3 milhões de toneladas na safra 2024/2025.
Segundo Marcelo Di Bonifácio, analista de açúcar e etanol da StoneX, as cotações da commodity em Nova York registraram, no ano passado, a maior queda desde 2017 — um movimento que não reflete apenas o balanço global, mas principalmente o comportamento dos importadores.
“Em 2024, os preços foram muito bons e os países compraram bastante. Eles entraram em 2025 bem abastecidos, o que reduziu a necessidade de importações no primeiro semestre”, explica.
Na Bolsa, as usinas figuraram entre as grandes decepções de 2025, com Raízen (RAIZ4), São Martinho (SMTO3) e Jalles (JALL3) acumulando quedas de 61,97%, 61,87% e 39,25%, respectivamente.
Mesmo com um cenário de déficit, o mercado foi abastecido pelo consumo de estoques e pela estratégia agressiva do Brasil, que maximizou o mix açucareiro. O resultado foi um mercado incapaz de sustentar movimentos de alta.
A margem das usinas brasileiras está muito apertada e, em alguns casos, abaixo do custo de produção.
“E, se isso já é difícil para o Brasil — que tem o menor custo do mundo —, imagina para outros produtores. A Tailândia, por exemplo, precisa cobrar um prêmio maior para exportar, por conta de custos mais elevados e limitações logísticas”, comenta.
Vale lembrar que o consumo global de açúcar também está desacelerando, com retração na China e nos Estados Unidos. No país norte-americano, essa tendência vem acompanhada do maior uso de medicamentos para emagrecimento.
O fôlego para as usinas
No Brasil, o etanol desponta como o principal vetor de sustentação do setor em 2026. Os preços no início da safra 2026/2027, a partir de abril, tendem a ser elevados, tornando o biocombustível mais atrativo que o açúcar e indicando um mix mais alcooleiro.
Os preços do etanol em Ribeirão Preto já chegaram a R$ 3,70, patamar bem acima de outros momentos recentes.
No entanto, Di Bonifácio alerta para os riscos: uma produção maior deve pressionar os preços ao longo do ano, enquanto o crescimento acelerado do etanol de milho aumenta a concorrência no mercado.
“O açúcar não deve ser virtuoso pelo menos no primeiro semestre de 2026. É um ano que exige estratégia para o setor. Já o etanol promete melhores horizontes e ajudar a pagar a conta, mas também exige muito planejamento, principalmente porque não contamos com instrumentos tão líquidos de hedge, como acontece com o açúcar”, afirma.
O analista da StoneX é claro ao elencar os passos que as usinas devem seguir para navegar esse cenário desafiador:
- evitar alavancagem excessiva, especialmente em um ambiente de juros elevados;
- não esperar por quebras “salvadoras” de safra;
- arrumar a casa financeiramente;
- trabalhar com uma estratégia comercial muito bem definida;
- não contar, no cenário base, com um aumento da mistura de etanol na gasolina.
E o clima?
No que diz respeito aos eventos climáticos, para a safra atual (25/26) da Índia — um dos principais exportadores globais de açúcar — é muito difícil haver impacto relevante, já que a colheita está em andamento.
O problema ocorreria se o El Niño persistisse e impactasse as monções em 2026, o que afetaria a safra 26/27, e não a atual.
“Se chegarmos em abril, maio ou junho ainda com El Niño ativo, isso pode ser positivo para os preços, porque sinalizaria risco para a próxima safra indiana. Mas, por enquanto, os dados indicam que a safra atual da Índia é boa”, explica Bonifácio.
O estado de Maharashtra, por exemplo, apresenta moagem mais de 40% acima do ano passado — chegando a quase 50% em alguns momentos. Trata-se de um dos melhores inícios de safra dos últimos anos.
A Índia anunciou exportações em torno de 1,5 milhão de toneladas. Embora não seja um volume elevado, com os preços baixos, essas exportações estão acontecendo de forma lenta.
“Isso mostra que o mundo não precisa desse açúcar indiano agora. Se os preços subirem, a Índia passa a ser uma pressão adicional de oferta”, afirma.
Na Tailândia, outro importante player global, a safra 25/26 começou em dezembro. A expectativa inicial era muito positiva, diante do aumento do plantio em 2024 e no início de 2025 e das condições climáticas favoráveis.
No entanto, algumas regiões já reportam doenças nas lavouras. Até o início de janeiro, a moagem estava cerca de 25% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado, ainda que seja cedo para conclusões definitivas.
“Janeiro será um mês crítico. O otimismo excessivo com a Tailândia pode se frustrar. Existe potencial para uma produção menor do que o esperado. Mesmo assim, o mundo não precisa desesperadamente desse açúcar”, avalia.
Só haveria impacto relevante caso a quebra fosse muito forte, a ponto de acionar demanda adicional da China, Indonésia e outros grandes importadores.
Para a safra 2026/2027 no Brasil, o cenário é de uma produção bastante robusta. “O clima em dezembro foi excelente, choveu muito — foi um dos maiores volumes de chuva dos últimos anos, mais de 25% acima da média”, conclui.